sexta-feira, 28 de abril de 2017

Procuro




Levanto as pedras da praia na baixa-mar.

Subo e desço as arribas povoadas de gaivotas que interrogo.

Os bagos de areia que tento segurar nas mãos fechadas escorrem por entre os dedos.

Mergulho na água gelada do mar que me encanta e alimenta numa interrogativa vã.

Cabelos ao vento aspiro a brisa marítima vinda de terras longínquas, talvez ela traga resposta às minhas dúvidas.

Abro os braços, levanto o olhar e procuro nas nuvens que correm, rapidamente, na pressa louca de buscar o sul, algum sinal que me esclareça.

Consulto os livros que enchem as prateleiras, as enciclopédias das bibliotecas, os jornais e revistas que se vendem nos quiosques.

Procuro olhando as estrelas na noite sem luar e só vejo o vazio. Ouço o passar das horas, dos dias e cada vez são maiores as interrogações.

Os pensamentos confundem-se, enleiam-se e eu continuo na procura da resposta para estes dias de terror e mal-estar em que vivemos, para esta existência oca, vazia de sentimentos. Gostaria de saber a solução para os problemas que envolvem esta Terra povoada de irmãos que nunca se viram mas se odeiam, de gente que nunca sentiu o calor dum abraço, a ternura dum beijo, a magia dum olhar, o significado da palavra AMOR.

Não é este o mundo que sonhei para os meus netos.

foto e texto de Benó

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Se







Se eu pudesse montar num tornado, correria montes e vales por todo o universo. Faria uma limpeza total à maldade, mesquinhez, à inveja.

Não destruiria lares construídos com Amor, não destruiria searas nem hortas onde as sementes são lançadas para ser frutos de amanhã, não destruiria barcos de pesca que tiram do mar alimento para bocas famintas.
Se eu pudesse montar num tornado, iria ao sol roubar um raio de luz para iluminar e aquecer o mundo, sugava uma nuvem branca para pousar os pés cansados de tanto caminhar. Espremia as nuvens cinzentas para que deitassem a água necessária para os desertos se tornarem férteis oásis, onde crescesse sempre o maná da paz e da alegria.

Se eu pudesse montar num tornado, daria infinitas voltas ao mundo na procura da FELICIDADE para ser  distribuída por todos os cantos do mundo.
Ah, se eu pudesse montar num tornado!

foto e texto de Benó

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Diversão



Calmamente,  as folhas do livro iam sendo folheadas uma a uma.
De vez em quando, a leitura era interrompida, o livro pousado sobre a mesa e, sem os óculos,  o olhar espraiava-se pelo exterior. Era o momento de pausa e meditação a que se propunha diariamente, naquele espaço  com vista para o mar, enquanto tomava o seu café.
Repentinamente, naquela manhã, tudo se modifica e de dentro de um autocarro acabado de chegar, sai um magote de homens e mulheres de diversas idades, todos alegres que irrompem pela esplanada na procura de mesas disponíveis.
Mais uma vez, o sul é invadido pelos “nuestros hermanos”, só que agora os castelos a conquistar são outros  e as armas utilizadas bastante diferentes das de antigamente em que nos guerreávamos pela posse dum bocadinho de terra. Hoje, o alvo da conquista eram as mesas ainda disponíveis, da cafetaria .
Sentam-se para tomar um pequeno almoço, ou melhor, dado o avançado da hora, um “brunch” entre risos e conversas mantidas em altos decibéis. De telemóvel na mão, selfie para aqui, selfie para ali vão comendo, gargalhando e registando para depois recordar aqueles divertidos momentos..
 Este grupo dos nossos vizinhos espanhóis é bem disposto, não parece ser beligerante e transmite alegria. No entanto, é barulhento demais para quem aprecia algum silêncio e, sentado à mesa dum café, tenta ler.
Não foi demorada a refeição e, como chegaram, assim partiram rindo e conversando em alto som.
Aconteceu um dia,  nesta província do sul, numa esplanada algures à beira mar situada.
foto da net Texto de benó

terça-feira, 28 de março de 2017

Areia Molhada





Não me pertenço, não te pertenço, não sou de ninguém, não sou nada e sou tudo.

Sou dia de verão, sem nuvens. Tenho o calor do sol .

Arco-íris depois da chuva.

Sou noite sem lua. Escuridão espessa.

Silêncio.

Sou o luar que te beija quando à beira-mar caminhas, pelas marés vazias, na areia molhada.

 Sou o manto estrelado quando, deitado nas dunas da praia, sonhas azul.

Sou livre caminhante pela estrada da existência.

Pensante.

Sonhadora.

Sou o ser e o estar. O querer e o desejar.

A ambição e o sonho cabem na concha das minhas mãos.

Não sou nada e sinto que sou tudo, pois tu sem mim não sabes ser.




foto e texto de Benó

segunda-feira, 20 de março de 2017

As ilhas do Martinhal/Sagres


                                                                                                       fotos da net

Na placidez do azul líquido, as 4 ilhas ali estão donas da enseada a impedir que o mar quando zangado venha bater nos grãos de areia das praias que elas têm à sua guarda.
Olhamo-las do cais e no seu silencio mudo, altaneiro,  falam-nos de barcos piratas e de corsários, de guerras perdidas e de outras bem sucedidas, de damas e de cavalheiros lutando pelo seu amor, de aventuras e desventuras, de tudo que viram e ouviram durante a sua vida secular, ali, rodeadas pelo oceano que as beija  suavemente deixando-as húmidas e brilhantes ou as abraça e sufoca com fortes lençóis de espuma branca nos dias de fúrias gigantes em que o Adamastor quer revelar que quem manda nestes mares é ele.
Ao olhá-las colocadas em fila, achatadas, com os mais diversos formatos com que a mãe natureza as concebeu, pensamos quantos vendavais já as castigaram, quantos sóis e quantas luas as iluminaram, quantas estrelas-do-mar descansaram sobre elas, quantos pássaros ali construíram o seu ninho.
É nas noites de lua cheia em que elas emergindo do azul líquido que as rodeia parecem emitir uma luz prateada que se estende por sobre os barcos ancorados na baía atingindo com sentimentos mágicos quem se passear pelo cais.
É preciso saber ouvir as pedras no seu silêncio quando de manhã, mudas e quedas saúdam o sol que se ergue das profundezas do oceano.

                                                                                                    fotos de Benó


quinta-feira, 16 de março de 2017

GATOS




Os gatos, esses felinos que tanto gostam de ronronar numa fofa almofada ao calor duma lareira, como de estar alerta sobre as incómodas e frias telhas dum qualquer telhado, escolhem a hora parda do cair da noite em que não há sombras e os seres vivos recolhem aos seus ninhos, sejam eles aves ou humanos, para saírem na procura duma aventura ou romance ou, talvez, quem sabe, à caça dum qualquer incauto roedor de orelhas pequenas e cauda longa.
Só se deixam acariciar quando querem, afastam-se do lar por largos períodos de tempo regressando, muitas vezes, mal tratados, feridos, sem pelo. Outras vezes, nem regressam deixando os donos a chorar de saudades. 
Têm garras. São fortes. São pequenas feras domesticadas.
São livres, individualistas, caçadores e gostam de oferecer o resultado das suas presas sejam pequenas aves, roedores, pequenos répteis ou insetos postos delicadamente à porta da casa que lhes serve de lar.
Ágeis, brincalhões julgam que têm sete vidas e são dotados duma personalidade muito vincada. Conseguem adoçar-nos quando esfregam a cabeça nas nossas pernas com um doce ronronar ou ainda quando se deitam no nosso colo de barriga para o ar a pedir carinhos.
São assim os gatos que conheço e que se passeiam algures por aí.





sexta-feira, 10 de março de 2017

Ruínas




Casas que foram lares. Habitações de gente feliz com vidas preenchidas pela alegria, onde as conversas faziam parte do dia-a-dia, os sentimentos se sentiam. As lágrimas e as tristezas eram vividas por todos numa partilha de amor e carinho.
Havia a cozinha sempre de porta aberta para todos, com o cheiro natural dos cozinhados confecionados com amor e saber. Era aquela, a divisão principal da casa, onde se conversava, se comia, se ralhava, se estudava a tabuada e faziam as cópias.
As casas foram o ninho/berço de crianças que aí cresciam e se desenvolviam até à maturidade da sua vida. Quando se encontravam aptos para lançar as suas sementes à terra para se multiplicarem e construírem novos ninhos, aos poucos e poucos, com amor, partiam, mas não para longe pois era importante continuarem ligados ao sítio onde tinham nascido e crescido.


Hoje, são ruínas, casas abandonadas, esquecidas da sua importância, albergues de ratazanas e lagartos onde cada pedra tem uma história para contar.

Fotos e texto de Benó

sábado, 4 de março de 2017

A voz da fome





A voz das gaivotas quando disputam alimento arrasta-se sobre a relva, sobe em tons agudos e dependura-se nos ramos das árvores avisando outras aves que aquele espaço lhes pertence. Naqueles momentos de saciedade fala alto a voz da fome e há bicadas pelo melhor bocado, discussões, gritos.
Gaivotas em terra sinal de fome.
Texto e fotos de Benó

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Conversas floridas




Perguntei aos narcisos porque tinham vindo tão cedo se nem as frésias nem os crocus tinham chegado. Tão entregues estavam a admirar a sua beleza que não obtive resposta. Peguei num livro e sentei-me desfrutando do prazer morno dos últimos raios de sol deste dia de fevereiro. Coloquei-me um pouco afastada daquelas flores vaidosas. O som dos melros empoleirados nos longos braços da araucária, no chamamento das fêmeas, fazia-se ouvir e  serviria de acompanhamento musical, sem me incomodar ou distrair da leitura, pensei.

Puro engano. Os malmequeres começaram a conversar, melhor dizendo, a discutir quem teria o branco mais niveo, mais puro, quem teria mais pétalas de bem-me-quer. Discussão que não levaria a nenhuma conclusão e que só terminaria com a chegada das rosadas boas-noites exalando o seu adocicado perfume abrindo-se para receberem o beijo de despedida do sol. O jasmim não se fez esperar e fazendo prevalecer a sua altura e o seu estatuto de trepadeira impos silêncio no canteiro.

 O dia chegava ao fim. Em breve a noite estenderia o seu manto sobre o jardim e um arrepio percorreu-me os braços despidos avisando-me das horas de recolher. Não chegara a abrir o livro e fiquei na dúvida se não teria adormecido ao som das conversas aromáticas das flores do canteiro.

texto e fotos de Benó

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Gata








Andou na rua, pelos telhados, pelos campos. Passou fome, frio, desconforto. Muitos gatos a possuíram, muitas ninhadas pôs no mundo.
Um dia fartou-se da vadiagem e desejou uma nova vida onde houvesse carinho humano, comida e água fresca.
Escolheu uma família com casa no campo. Sorrateiramente, entrou por entre as árvores do jardim e junto às grandes vidraças de onde se via crianças brincando, fez o seu ar mais terno e pediu abrigo. As portas abriram-se e oito braços a  acolheram, abraçaram e, entre todos, deram-lhe um nome: GATA. Levaram-na ao médico, fez exames, tomou remédios.
Já não voltará a andar pelos telhados com um e com outro. Não passará mais fome.
Agora tem casa própria, quem lhe dê atenção, carinhos, alimentação e pode satisfazer uma das suas preferências que é deitar-se em cima do aquário como guardadora dos peixes coloridos que a provocam com as suas danças exóticas.

Apesar de ter tido uma vida difícil, a gratidão faz parte dos seus sentimentos felinos e com alguma frequência vai à caça para oferecer os seus troféus a quem a adotou. Ratinhos do campo, pequenas aves e alguns répteis estropiados são postos na porta da entrada da casa que a acolheu, como retribuição por tudo de bom que lhe tem sido dado.

É assim uma GATA que eu conheci.

texto e foto de Benó

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A chuva




A árvore despida, totalmente nua, de braços erguidos ao céu aguardava a água necessária ao seu alimento e renovação.

A chuva chegou com verticalidade, fria, em lágrimas grossas. Umas vezes açoitadas pelo vento indignado com tanto tempo de ausência, outras vezes com tal intensidade que o seu som parecia pedras a caírem sobre tampas de panela.

 A chuva lavou chãos, calçadas, telhados e terraços. Arrastou terra feita lama, pedras, calhaus, galhos, folhas secas que eram tapete de ruas. Escorreu pelas penas pretas dos melros que costumam comer os medronhos maduros, quando bolas pequenas de cor vermelha enfeitando o verde da folhagem. Abriu regos na terra seca, fez regatos que levaram detritos para os ribeiros que se dirigiram para o mar habitado por peixes esfomeados, penetrou na profundeza da terra até onde se situam as raízes fortes das grandes árvores definhando com sede.
A chuva foi desejada.
Em breve, folhas novas, verdejantes começarão a vestir a amendoeira que abençoará a água que agora lhe escorre pelo corpo nu. A erva azeda aproveita todos os pingos que o seu fino caule pode receber para tornar mais amarela a sua flor.
A chuva foi necessária.

Texto e foto de Benó

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Mães



Bendito seja o vosso ventre. Ele foi a caixinha onde, uma a uma, se geraram as quatro vidas que me deram o estatuto de AVÓ. Quatro seres, quatro personalidades, quatro sorrisos, quatro quereres, saíram de vós. Um a um eles foram aparecendo, foram crescendo, foram enchendo o meu mundo, aquecendo os dias da minha existência e vocês com o vosso carinho de MÃE, compreensão, diálogos, dizer NÃO quando é preciso, embora por vezes vos seja difícil, (eu sei) cedências, proibições, acompanhamento, têm-lhes ensinado o que é ser NETO.
A vós, MÂES, para tudo eles recorrem e, sempre disponíveis, ouvem-nos, aconselham, orientam, não perdendo NUNCA,  esse difícil saber, que é o ser MULHER.

Geraram  vidas que começam a aprender novas passadas para se fazerem ao caminho da liberdade, sair do ninho, percorrer os trajetos dum futuro onde irão encontrar obstáculos vários, oceanos de tempestades, montanhas pedregosas, ciladas, ratoeiras, mas que, com os vossos ensinamentos, com o vosso amor e presença, com todo o apoio construído em família, eles saberão ultrapassar.
Vocês são, têm sido o meu suporte, o contributo para eu desempenhar esta função que, por vosso decreto, comecei há dezasseis anos e que espero continuar por muitos mais anos.

Obrigada às duas, R e M, sempre presentes.
texto e foto de Benó

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Abrigos





As pedras reunidas sem preferência de tamanho ou feitio são muralhas aos abrigos construídos num fim de tarde de sol brilhante e quente, em que os corpos se rebolam nas covas, depois de muitas brincadeiras.
Hoje é inverno, a praia está deserta, apenas os caranguejos se atrevem a pequenas corridas e as estrelas do mar atiradas para o areal por algum vómito da maré-baixa jazem inertes na espera que os longos braços da preia-mar as devolvam ao oceano.
As nuvens cinzentas carregadas de água afastaram da beira-mar os mais audaciosos que sempre se afoitam na procura de conchas ou de um ou outro “tesourinho” que a vazante possa deixar nestes dias de maior maresia e que eles recolhem para as suas coleções ou artefactos com que se enfeitam e vendem.

Mas, há sempre alguém mais corajoso, talvez seja mesmo, um construtor dos abrigos de pedras que, cheio de querer e paixão, ali permanece na espera do melhor ângulo que o voo duma ave, do salto acrobático dum peixe para fora de água ou duma vaga orlada de espuma, mais alterosa e caprichosa lhe possa oferecer.
Há momentos inesquecíveis no percurso de um fotógrafo.
Há pedras que guardam segredos.

fotos e texto de Benó




sábado, 21 de janeiro de 2017

Cegonhas







Gosto de ouvir o gloterar das cegonhas. Aquele som tão característico do bater dos bicos transporta-me aos meus tempos de menina.

Recordo, todos os anos, o mesmo casal destas aves voltava para o seu ninho construído no torre da igreja da minha terra para aí depositar os ovos e constituir mais uma família.

As cegonhas são monogâmicas e eu, menina, acabava por entabular conversa com as aves de pernas longas, num tu cá tu lá, como se na realidade falássemos a mesma linguagem. Via-as, ora uma ora outra, a chocar os ovos donde sairiam os pequenos filhos e  esperava ansiosamente o aparecimento das penugentas aves para  com pulos e saltos bater palmas de satisfação. Acompanhava o seu desenvolvimento e ficava triste quando, chegado o fim do verão, pais e filhos partiam para outras zonas mais amenas, onde iriam passar o inverno. Os filhotes iriam constituir novas famílias e eu ficava com a esperança de as tornar a ver no ano seguinte e bateria palmas novamente quando se desse o aparecimento das novas crias.

texto e foto de Benó.

Depois, elas e eu partimos cada qual para o seu destino, com os pais, para longe. As cegonhas não voltaram para a torre da igreja. Eu voltei para a terra que me viu nascer.

Fotografei outras cegonhas e voltei a ser menina.