sexta-feira, 10 de junho de 2016

Indelicadeza


Incomoda-me quando me tratam por você e, quando esse tratamento vem de identidades com altos cargos na nossa sociedade, então sinto arrepios. Desde pessoas que deveriam, pela sua posição profissional, possuir uma certa instrução e, também, alguma educação, até ao mais modesto operário, esta é, agora, a maneira comummente utilizada para comunicar.  
As chamadas telefónicas vindas dos “call center” são duma incorreção atroz. Será que não é dada a esses funcionários (as) um pouco de formação sobre a maneira correta de se dirigirem às pessoas? Telefonam, incomodam e ainda por cima são indelicados(as) na abordagem que fazem ao assunto que querem tratar, como ainda fazem perguntas num tom agreste e altaneiro, como se estivessem num interrogatório de criminologia. Aconteceu, hoje.
Não suporte falta de educação, principalmente, de quem não conheço.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Ausência




Saudosa, ansiosa, vejo o sol partir por debaixo das águas verdes do oceano profundo e a noite chegar negra e escura, sem lua, sem estrelas, sem cometas. Abalaste como o sol, ao fim do dia, para lá da linha do horizonte. Mas amanhã ele voltará e terei novamente o seu abraço quente, aconchegante.

E tu? Não sei.
A casa arrefeceu.

Resta um pouco de cinza ainda quente na lareira sem lenha. A cama vazia, enorme está como a deixaste de lençóis enrodilhados, porém fria, sem o bafo dos nossos corpos.

Aguardo-te sem temor nem ansiedade.
Com saudade.


foto e texto de Benó

terça-feira, 26 de abril de 2016

Uma folha



A folha desejava estar liberta para dançar ao sabor do vento.


Soltou-se dos braços de sua mãe e rodopiou como uma bailarina em pontas.


Subiu, tornou a girar e sentiu os raios de sol na sua pele.

 


Cansada de tanto rodopio tomba, por fim, feliz por ter alcançado o sonho de dançar ao vento. 
Ressequida, ali fica no chão junto de outras irmãs sem vida, inerte.
Em breve será pó.


fotos e texto de Benó

terça-feira, 12 de abril de 2016

Gente comum

                                               Henri Matisse/net
 

São pessoas comuns, homens e mulheres com quem nos cruzamos diariamente, que conhecemos por frequentarmos os mesmos locais: o café, a pizaria, a loja, o mercado e a quem sorrimos num cumprimento casual. Cada um alberga dentro de si alegrias e tristezas, segredos, intimidades que na sua aparência, dita normal, não deixa transparecer nem no rosto nem nas conversas leves e rápidas que ocasionalmente se possam trocar.
Casamentos desfeitos, doenças incuráveis, dependência de drogas, tudo isto é camuflado com sorrisos de indiferença nos cumprimentos habituais de “Olá como está?”
Nas conversas mantidas à mesa do café cochicha-se o escândalo e uma palavra aqui, outra palavra ali em tom mais elevado é dado a conhecer a razão do burburinho. Trata-se de mais um caso já frequente na sociedade atual. Já nada nos espanta nesta nossa vivência mas não deixei de sentir um profundo calafrio ao confirmar o que me parecia dúbio e, ao mesmo tempo, pensar que o que nos parece sólido pode esboroar-se como um castelo de cartas ao leve sopro, e, como as relações humanas podem ser difíceis e fantasiosas.
Como atrás de um sorriso se podem esconder mil pesares. Como a calma dum olhar ilude a tempestade dum pensamento.

Como desconhecemos quem conhecemos.


                                                                                 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Inconstante e Caprichosa

                                                                                                                Luisa Delartesa
 

A prima Vera irritante e mimada, visitou o Jardim.
Sorridente ou chorosa ei-la a bailar com as folhas que giram no ar.

Num momento sorri, envia convite para a praia, serve gelados, caipirinhas, abre os braços ao sol, desnuda-se, atira sonoras gargalhadas que se perdem nos bicos dos pardais na busca de sementes, dá cor às rosas, amarelo aos malmequeres, ajuda as espigas a se tornarem trigo.
Inconstante. Caprichosa, ventosa muda o seu estar num instante.
Dum tempo para outro tempo sem contagem de horas, altera o seu humor. Chama as nuvens que numa  obediência real acodem ao chamamento e, cumprindo ordens, tornam o dia luminoso e primaveril num dia escuro, invernoso rasgando-se barulhentas sobre a terra já florida.

Pendem os malmequeres. As papoilas desnudam-se. As amendoeiras sorriem.
É assim a inconstante e caprichosa prima Vera que uns adoram e outros nem por isso.

foto da net
texto de Benó

quarta-feira, 30 de março de 2016

Renovação

                                                                                     Wassily Kandinsky
 
 
 
 
Vidas de muitos anos estão expostas em prateleiras que forram paredes. Pequenas peças escolhidas com carinho,  colocadas naquele lugar com ternura pelas mãos de quem as comprou. Cada uma tem a sua história, lembra um local, uma viagem, um aniversário, talvez. Ali têm estado sem incomodar, são presença dum passado que já passou e de tanto nos habituarmos à sua silenciosa presença, esquecemo-nos que há uma altura para renovação. É preciso esvaziar as prateleiras, é preciso limpar as gavetas, é preciso fechar o coração e limpar a casa que foi ninho, aconchego, lugar de ternuras e de afetos. Entre aquelas paredes se construíram sonhos, se fomentaram ambições, se planearam aventuras. Houve risos, lágrimas, zangas, alegrias. Vidas vividas num tempo que já não existe. Eternizaram-se momentos em fotografias que se meteram nas molduras  para decorar as prateleiras ou que se prenderam com  cantos colados nas folhas dos álbuns protegidas por papel de seda. Ficou tanta lembrança que é preciso esquecer pois
É urgente renovar.
 
 

 
 
 

segunda-feira, 28 de março de 2016

Ninho


 
Gosto de ouvir o gloterar das cegonhas. Aquele som tão característico do bater dos bicos transporta-me aos meus tempos de menina. Todos os anos, o mesmo casal voltava para o seu ninho construído no torre da igreja para aí depositar os ovos e constituir mais uma família.

As cegonhas são monogâmicas e eu acabava por entabular conversa com as aves que eram sempre as mesmas, num tu cá tu lá, como se na realidade falássemos a mesma linguagem. Via-as, ora uma ora outra, a chocar os ovos donde saíriam os pequenos filhos e esperava ansiosamente o aparecimento das penugentas aves para com pulos e saltos bater palmas de satisfação. Acompanhava o seu desenvolvimento e ficava triste quando, chegado o fim do verão, pais e filhos partiam para outras zonas mais amenas, onde iriam passar o inverno. Os filhotes iriam constituir novas famílias, num outro local, possivelmente,  e eu ficava com a esperança de tornar a ver no ano seguinte as cegonhas minhas conhecidas, e bateria palmas novamente quando se desse o aparecimento das novas crias. Repetir-se-ia o mesmo ciclo da vida.
 
Hoje fotografei cegonhas e voltei a ser menina.
 
fotos e texto de Benó