terça-feira, 22 de Abril de 2014

Cinzas

 
 
 
Hoje são cinzas cinzentas, frias, mortas.
 
 
 
Ontem,  foram brasas escaldantes, rubras, cheias de calor, de vida, exímias executantes de danças feitas de abraços e desabraços, sempre num constante sobe e desce, tais  bailarinas em complexas coreografias  a rodopiar nos braços dos seus pares.

Como se fossem gente, elas aqueceram, iluminaram, foram fogo, foram chama, labaredas dançantes no palco da vida.

Apagou-se a lareira, morreram as chamas, arrefeceram as cinzas mas ainda resta um pouco de calor  na sala arrefecida.



fotos da net
texto de Benó

domingo, 6 de Abril de 2014

Sinopse duma vida


“É a vida. São os anos” Diz a Inácia para justificar as dores nas cruzes que a atormentam, as artroses nos pequenos dedos das mãos, a dificuldade que sente em calçar os sapatos.
A vida não foi fácil para a Inácia nascida em pleno rebentar da II Guerra Mundial, criada na pequena vila onde todos se ajudavam com amizade e com preocupação pelos problemas que sendo individuais se tornavam colectivos.

Os pés andavam nus no verão, livres sobre as ervas, correndo sobre caminhos que serviam homens e animais numa sã vivência e dependência. No inverno, quando a geada queimava os pastos, a Inácia calçava umas botas que já tinham sido beneficiadas com meias-solas e solas inteiras para um qualquer primo ou irmão.

As mãos agora calejadas já foram jovens e cedo começaram a trabalhar para ajudar outras mãos já cansadas de tanto lavar, engomar, cozinhar para todos que eram muitos mas também souberam tecer sonhos de menina, bordar quimeras e desejos de mulher, ofereceram amor em troca de nada.

Hoje, tantos invernos já passados, as costas da Inácia ressentem-se desses frios, dos pesos dos feixes de ervas que transportaram quando ainda os seus ossos eram tenros e em formação.

“É a vida” que foi dura, madrasta para uma MULHER que viveu, sofreu em silêncio, frios, secas, infortúnios porque “há sempre alguém em piores condições”.

“São os anos” duma vida longa, honesta, trabalhosa, difícil para quem nasceu MULHER, pobre e “nunca passou da cepa torta”, passados entre risos e lágrimas, entre os que nascem e são a esperança de melhores dias, os que ficam agarrados ao leme do seu destino, entre as saudades dos que abalam para outras terras com promessas de regresso, vivendo as lembranças dos que vão e já não voltam.

São as dores da fatalidade de quem se acomoda, da MULHER que ama, chora, entrega-se por inteiro e se esquece de si própria.

Eis a sinopse da vida duma MULHER.

texto e foto de Benó

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domingo, 30 de Março de 2014

Prelúdios florais

A primavera vai deixando alguns pontos da sua graça florida aqui pelo jardim. Levou a amarelo da erva azeda, já levou também as flores das amendoeiras deixando no seu lugar os pequeninos frutos que se irão tornar em saborosas amêndoas e as clivias, os brincos de princesa, os botões de rosa, os níveos jarros oferecem-me toda a sua beleza que partilho convosco.





 
 
fotos e texto de Benó                                                                                                                              

sábado, 1 de Março de 2014

Procura de sementes

 
 

 

 Quebre-se o silêncio das nossas bocas caladas.
Deixemos que as mãos sejam aves à procura de sementes
Nos nossos corpos searas prontas para a safra.
No desejo da descoberta, no cansaço da aventura,
Na dádiva da entrega total,
Nenhum segredo ficará por desvendar.
O bater dos corações em ritmo acelerado
Abafará o crepitar das chamas em nossos corpos queimando.

foto e texto de Benó

segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2014

Caminhos



Longo é o caminho a percorrer. Umas vezes a subir, outras nem tanto; umas vezes na linha reta previamente traçada, outras vezes com perigosas curvas em cotovelo que nos aparecem repentinamente e nos obstruem a visão do percurso idealizado. Poderão ser caminhos de asfalto fáceis de pisar ou  caminhos pedregosos, escorregadios, sinuosos demais.





Neste percurso de sobe e desce, de curva e contracurva será obrigatório não perder o rumo; não mudar a direção previamente definida; não estacionar na berma; não exceder as velocidades nem a mínima nem a máxima; evitar as distrações que poderão ocasionar graves acidentes muitas vezes irreparáveis.


É continuar em frente, com o olhar fixo no cimo da montanha mesmo que sobre ela se veja nebulosidade, chuva ou nevoeiro.

foto e texto de Benó

sábado, 15 de Fevereiro de 2014

Abandono



Navegou por mares longínquos, ora mansos como lagos, ora relevados como cordilheiras de altas serras, num sobe e desce de vagas profundas. As baleias e os golfinhos foram a sua companhia na descoberta dos cardumes da prata que encheria o seu ventre para se converter no alimento das famílias e dos homens que o governavam e dele dependiam com confiança.
Muitas campanhas de gente forte e corajosa viveram dele e para ele.
Em terra, ficavam os corações femininos ansiando pelo seu regresso, numa espera longa e, em que, durante esse tempo, saudosas pelo amor dos homens ausentes, uns profundos sulcos, sinónimo de cuidados e canseiras, iam marcando os seus rostos jovens.

Envelheciam sozinhas.  
Muitas luas se passaram, muitos ventos zuniram nos seus mastros, muitas vagas varreram o seu convés. Quantas vezes mergulhou na escuridão dos nevoeiros com o sol embrulhado em densas teias de humidade. Os seus comandantes, mestres na arte de navegar, sempre o souberam dirigir com rumos certos para bons portos, mas, agora, tal como eles, a sua vida chegou ao limite.

As tábuas do convés esburacaram carcomidas pelo bicho, pela idade que não perdoa e tudo consome, o seu cavername, - a sua coluna dorsal -, a sua estabilidade que lhe proporcionava a forte resistência para vencer a adversidade dos mares, está diminuída; os motores –o seu coração-  pararam para sempre, já não necessitam de óleo, o sangue que lhe dava vida; os porões deixaram de ter condições para guardar qualquer espécie piscatória, cheiram a mofo, criaram limo, são urnas vazias.
Agora, só lhe resta o esqueleto velho, enferrujado, apodrecendo a cada dia que passa, ali, no estaleiro onde permanece encalhado a servir de albergue a ratos e baratas, pouso de aves marinhas, abandonado às intempéries, açoitado por ventos e areias, incapaz de navegar.

Dentro de si guarda recordações que não partilhará; vagueiam fantasmas de sonhos e fantasias.

 foto e texto de Benó
 

 

terça-feira, 11 de Fevereiro de 2014

Barcos na baía

 
 

Ansiosa, chega à janela que não abre e, por entre as cortinas de fina gaze transparente, olha a calma baía de águas azuis esmeralda, onde o céu se vê e revê tal como Narciso no lago.

De pé, vagarosamente, com as mãos pequenas, põe as vidraças a descoberto e sorrindo alonga o olhar até onde os veleiros de velas recolhidas se encontram fundeados.

Ansiosa espera, pois sabe que, dentro de minutos, alguém virá a terra, possivelmente algum marinheiro para se abastecer de frescos ou simplesmente matar saudades de pisar terra firme. Ansiosa interroga-se: -Como será o comandante de cada iate? Novo, velho? Quantas pessoas viajarão ali? Qual o próximo porto a visitar? Estas e muitas outras são perguntas que ficarão sem resposta pois, Ansiosa não sai da sua janela para ir perguntar, para ir saber, conviver com as gentes que chegam nos veleiros e movimentam as sossegadas águas da baía, enchem os bares, fazem compras, conversam alto nas esplanadas que tomam de assalto e sabem sorrir ao sol quente que os bronzeia. E põe-se a idealizar.

Ela sonha, devaneia fantasias com príncipes audazes e corajosos prontos a raptá-la do seu castelo onde não há relógios, nem agendas ou calendários, onde a vida parou e ela própria se enclausurou, se ermou, num vazio sem horizontes.

Ansiosa vive só com a sua ansiedade.

 
foto e texto de Benó