segunda-feira, 18 de julho de 2016

Sem nome



Sente-se uma ilha no meio do oceano de gente que a rodeia, uma ilha desabitada, solitária. Uma boia que partiu a amarra e foi deixada na praia pela maré cheia.

A caneta segura pela mão trémula recusa a transmitir ao papel os pensares da sua agitada mente. Só letras isoladas que dançam um bailado sem coreografia como moscas esvoaçantes sem saber onde poisar.

As pernas que sustentam o corpopesado nem conseguem ir pelo caminho aberto no chão duro da vida e os braços acabam por tombar inertes ao longo do corpo num abandono inusitado sem forças para se erguerem e abraçarem a vida.

É uma vida que já não é.

É um deixar de querer ser.

É um barco à deriva sem leme nem bússola que a tempestade da vida engolirá.



História triste anotada no Bloco de Capa Azul.
foto e texto de Benó


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Esperança



Ouve-se muitas vezes o desejo expresso por gente de 40/50 anos de querer voltar ao tempo de sua juventude.
Poderá haver várias razões para isso, como a falta de saúde, o desemprego, a solidão. Se por um lado a idade de 40/50 marca o começo dos achaques e se o desemprego se instalou nas famílias acrescido da dificuldade em arranjar nova colocação com esta idade, também é verdade que, ultrapassados esses problemas, o meio século já vivido nos proporciona um saber estar e um encarar as dificuldades dum modo mais suave.

Estudámos, trabalhámos, crescemos, amadurecemos.
Uns aprenderam a selecionar as pedras dos caminhos retirando aquelas que não tinham valor mas deixando as preciosas, outros não  souberam fazer essa escolha e caminharam sobre picos e escolhos, sangrando.

Durante estes anos de existência vimos fortes ventos rasgarem velas. Vimos náufragos  morrer na praia.
Viveram-se deceções, partilharam-se alegrias. Construíram-se sonhos.
Muita água correu sob as pontes
Que importa mais um cabelo branco? Mais uma ruga ou uma artrose se o sol nasce todos os dias? Se as crianças continuam a sorrir e se ainda há amor entre as pessoas?

Os velhos continuam a ter esperança.

Texto e foto de Benó.


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Indelicadeza


Incomoda-me quando me tratam por você e, quando esse tratamento vem de identidades com altos cargos na nossa sociedade, então sinto arrepios. Desde pessoas que deveriam, pela sua posição profissional, possuir uma certa instrução e, também, alguma educação, até ao mais modesto operário, esta é, agora, a maneira comummente utilizada para comunicar.  
As chamadas telefónicas vindas dos “call center” são duma incorreção atroz. Será que não é dada a esses funcionários (as) um pouco de formação sobre a maneira correta de se dirigirem às pessoas? Telefonam, incomodam e ainda por cima são indelicados(as) na abordagem que fazem ao assunto que querem tratar, como ainda fazem perguntas num tom agreste e altaneiro, como se estivessem num interrogatório de criminologia. Aconteceu, hoje.
Não suporte falta de educação, principalmente, de quem não conheço.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Ausência




Saudosa, ansiosa, vejo o sol partir por debaixo das águas verdes do oceano profundo e a noite chegar negra e escura, sem lua, sem estrelas, sem cometas. Abalaste como o sol, ao fim do dia, para lá da linha do horizonte. Mas amanhã ele voltará e terei novamente o seu abraço quente, aconchegante.

E tu? Não sei.
A casa arrefeceu.

Resta um pouco de cinza ainda quente na lareira sem lenha. A cama vazia, enorme está como a deixaste de lençóis enrodilhados, porém fria, sem o bafo dos nossos corpos.

Aguardo-te sem temor nem ansiedade.
Com saudade.


foto e texto de Benó

terça-feira, 26 de abril de 2016

Uma folha



A folha desejava estar liberta para dançar ao sabor do vento.


Soltou-se dos braços de sua mãe e rodopiou como uma bailarina em pontas.


Subiu, tornou a girar e sentiu os raios de sol na sua pele.

 


Cansada de tanto rodopio tomba, por fim, feliz por ter alcançado o sonho de dançar ao vento. 
Ressequida, ali fica no chão junto de outras irmãs sem vida, inerte.
Em breve será pó.


fotos e texto de Benó

terça-feira, 12 de abril de 2016

Gente comum

                                               Henri Matisse/net
 

São pessoas comuns, homens e mulheres com quem nos cruzamos diariamente, que conhecemos por frequentarmos os mesmos locais: o café, a pizaria, a loja, o mercado e a quem sorrimos num cumprimento casual. Cada um alberga dentro de si alegrias e tristezas, segredos, intimidades que na sua aparência, dita normal, não deixa transparecer nem no rosto nem nas conversas leves e rápidas que ocasionalmente se possam trocar.
Casamentos desfeitos, doenças incuráveis, dependência de drogas, tudo isto é camuflado com sorrisos de indiferença nos cumprimentos habituais de “Olá como está?”
Nas conversas mantidas à mesa do café cochicha-se o escândalo e uma palavra aqui, outra palavra ali em tom mais elevado é dado a conhecer a razão do burburinho. Trata-se de mais um caso já frequente na sociedade atual. Já nada nos espanta nesta nossa vivência mas não deixei de sentir um profundo calafrio ao confirmar o que me parecia dúbio e, ao mesmo tempo, pensar que o que nos parece sólido pode esboroar-se como um castelo de cartas ao leve sopro, e, como as relações humanas podem ser difíceis e fantasiosas.
Como atrás de um sorriso se podem esconder mil pesares. Como a calma dum olhar ilude a tempestade dum pensamento.

Como desconhecemos quem conhecemos.


                                                                                 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Inconstante e Caprichosa

                                                                                                                Luisa Delartesa
 

A prima Vera irritante e mimada, visitou o Jardim.
Sorridente ou chorosa ei-la a bailar com as folhas que giram no ar.

Num momento sorri, envia convite para a praia, serve gelados, caipirinhas, abre os braços ao sol, desnuda-se, atira sonoras gargalhadas que se perdem nos bicos dos pardais na busca de sementes, dá cor às rosas, amarelo aos malmequeres, ajuda as espigas a se tornarem trigo.
Inconstante. Caprichosa, ventosa muda o seu estar num instante.
Dum tempo para outro tempo sem contagem de horas, altera o seu humor. Chama as nuvens que numa  obediência real acodem ao chamamento e, cumprindo ordens, tornam o dia luminoso e primaveril num dia escuro, invernoso rasgando-se barulhentas sobre a terra já florida.

Pendem os malmequeres. As papoilas desnudam-se. As amendoeiras sorriem.
É assim a inconstante e caprichosa prima Vera que uns adoram e outros nem por isso.

foto da net
texto de Benó