quarta-feira, 22 de abril de 2015

Areal

                                                                                                         foto e texto de Benó
 
 
O areal é suave, macio e os pés que passam deixam marcas formando pequeninas dunas.
Quando o dia se despede e a brisa se torna vento, os finos grãos dourados esvoaçam colando-se aos corpos ainda húmidos dos últimos passeantes. É então que os relevos desaparecem para dar lugar a uma lisura fofa que a maré cobrirá de espuma borbulhante.

sábado, 18 de abril de 2015

Carinhos

 
Mãos que viajaram europa adentro sentiram outros tatos, mergulharam noutras águas, dedilharam outras músicas, ensaiaram outros gestos, acenaram despedidas. Mãos que se fecham para guardar as gargalhadas das crianças, os afetos que recebem, a felicidade que merecem, mas que se abrem para espalhar felicidade, amor, vontades traçadas num querer sem esmorecer, afagam, seguram e amparam.
Trouxeram-me lembranças que são carinhos.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Doces momentos

                                                                                             texto e foto de Benó

Chocolates, bombons, caramelos, chupa-chupas. Mãos lambuzadas, bocas peganhentas, olhos cheios de mel. São doces os momentos da visita à avó.
Correm à volta da mesa numa provocação. – Não me apanhas! Não me apanhas.

A avó extenuada com toda a correria e brincadeiras pede um intervalo na peleja para retemperar das forças já gastas
As suas pernas são mais altas, mais fortes mas estão mais pesadas e por isso mais lentas. Já percorreram muitos e longos caminhos mas ainda suportam trajetos fantasiosos em florestas povoadas de anões e duendes onde príncipes e princesas se perdem e se encontram para viverem felizes por todo o sempre. Também resistem às maratonas e corridas de corta-mato onde as pedras e os vasos do jardim se tornam os obstáculos a vencer porque no fim há distribuição de prémios por todos os participantes quer sejam ganhadores ou perdedores e a avó também gosta de chocolates, bombons, caramelos e chupa-chupas.



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Como Pedras




                                                                                          foto e texto de Benó


Folhas mortas, sem vida que o vento arrancou. Soltas, esvoaçam pelo ar ou acabam no chão onde serão pisadas, desfeitas em pó, reduzidas a nada.

Há palavras que quando libertadas podem ser usadas em arremessos violentos nas fúrias ventosas dos desencontros da vida ou podem vogar no ar ao sabor arrítmico das brisas quando reina a calmaria no espaço da vivência.

Folhas secas, palavras rudes, ambas são material de combustão fácil, capazes de provocar chama se caírem em sítios pouco cuidados onde as atenções à sua intrínseca manutenção foram esquecidas, no vaivém sempre igual das rotinas costumeiras. Aí tombadas, folhas ou palavras, rapidamente  criam condições para que fortes labaredas irrompam num braseiro destruidor.

Palavras duras como pedras, afiadas como setas, doridas e sofredoras dardejadas com precisão para atingir o alvo escolhido, ouvidas ao acaso, entre bicas e pastéis de nata, no burburinho dum café, pouso de gente de longe, onde as folhas não entraram mas os verbos soaram no presente, esquecido que estava o passado sem futuro pelos intervenientes da peleja.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Barco no estaleiro

                                                                                                                        
                                                                                         texto e foto de Benó


Navegou por mares longínquos, ora mansos como lagos, ora relevados como cordilheiras de altas serras, num sobe e desce de vagas profundas. As baleias e os golfinhos foram a sua companhia na descoberta dos cardumes da prata que encheria o seu ventre para se converter no alimento das famílias e dos homens que o governavam e dele dependiam com confiança.

Muitas campanhas de gente forte e corajosa viveram dele e para ele.

Em terra, ficavam os corações femininos ansiando pelo seu regresso, numa espera longa e, em que, durante esse tempo, saudosas pelo amor dos homens ausentes,  profundos sulcos, sinónimo de cuidados e canseiras,  instalavam-se nos seus rostos jovens.

Envelheciam sozinhas.  

Muitas luas se passaram, muitos ventos zuniram nos seus mastros,  muitas vagas varreram o seu convés. Quantas vezes mergulhou na escuridão dos nevoeiros com o sol embrulhado em densas teias de humidade. Mas, os seus comandantes, mestres na arte de navegar, sempre o souberam dirigir com rumos certos para bons portos.
Agora, tal como eles, a sua vida chegou ao limite.

As tábuas do seu convés esburacaram carcomidas pelo bicho, pela idade que não perdoa e tudo consome, o seu cavername, - a sua coluna dorsal -, a sua estabilidade que lhe proporcionava a forte resistência para vencer a adversidade dos mares, está diminuída; os motores –o seu coração-  pararam para sempre, já não necessitam de óleo; os porões deixaram de ter condições para guardar qualquer espécie piscatória, cheiram a mofo, criaram limo, são urnas vazias.
Hoje só lhe resta o esqueleto velho, enferrujado, apodrecendo a cada dia que passa, ali, no estaleiro onde permanece encalhado, a servir de albergue a ratos e baratas, pouso de aves marinhas, abandonado às intempéries, açoitado por ventos e areias, incapaz de navegar.

Dentro do que resta de si guarda recordações que não partilhará; vagueiam fantasmas de sonhos e fantasias.

 

 

 

terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto Helder

 
A homenagem simples do Jardim ao homem que partiu, ao poeta que ficou. Herberto Helder. Extrato do poema LUGAR
 
 
....Encontrei ondas e ondas contra mim, como se eu fosse
um homem morto entre palavras.
Campos de cevada inspirados no fogo que batiam
nas costas das minhas mãos,
aldeias inteiras cantando sua pureza
quase louca. Encontrei depois o lugar
onde deitar a cabeça e não ser mais ninguém
que se saiba. Uma pedra
pedra seca, uma vida entre muitos dons.
Com as raízes de quem divaga.
Uma pedra sem som como quem se move
sobre os alimentos.
..........
 
 
 
                                                                                                    foto de Benó
 
 
 
 
 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Simplesmente flores



 Os campos sentem-se abençoados pela água que nestes dias tem caído e tornado vigorosas as plantas que morriam à mingua dela. Como agradecimento, as flores silvestres abrem-se num sorriso e oferecem todo o encanto das suas cores aos passantes que, como eu, reparam nelas.




No jardim d'abrolhos, não há falta de água mas o frio tem engelhado os seus habitantes que num encolhimento sentido têm-se recusado a desabrochar.
No entanto, este lírio, o primeiro desta primavera, cansado de estar apertado dentro da terra, irrompeu e apresentou-se em toda a sua verticalidade azul.