terça-feira, 12 de maio de 2015

Papoilas

 
Campos de papoilas rubras, elegantes, de sedosas pétalas  e finos caules penugentos que dançam e
se agitam com as brisas que sobre elas perpassam.
Já não são vermelhas, perderam a cor viva, a cor da alegria. Estão descoradas, tomaram o tom pálido do descontentamento. Esqueceram os rubros cravos, esqueceram o que é ser livre ao saberem que as prisões estão cheias de homens, mulheres e até crianças.
Lembram os escritos proibidos que tantos desejavam ler. Agora, sabem que existem infinitas prateleiras cheias de livros em grandes casas para os vender mas, não há gente para os comprar.
 De que serve saber ler se não se sabe interpretar?
Falta dinheiro para o pão, falta dinheiro para a cultura.
As papoilas vermelhas descoradas lembram as searas douradas onde nasciam e cresciam e agora veem campos sem espigas, gente sem trabalho, fábricas paradas sem farinha, mãos sem calos pois não há ferramentas para concretizar os sonhos dos homens.
As papoilas, símbolo da alegria, estão sem cor e já não dançam ao som do vento. Pensativas não sabem para que serve a liberdade.

 

 

 

 

9 comentários:

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Benó.
Magnífico texto!
As papoilas símbolo da alegria, que foram um dia, símbolo duma liberdade em que significavam: "crescer, crescer" - já não se "cresce".
Até as papoilas se ressentem da tragédia que vive-se, onde já tudo já não serve para nada.

bj amg

Luma Rosa disse...

Oi, Benó!
Me fez lembrar de Fausto:
"De que serve o eterno criar,
Se a criação em nada acabar?"
Para quê existir os livros se a população não os usam? E as flores, se não mais perfumam como antes? Pode ser que a vida seja uma inutilidade, não vale o sangue que corre em nossas veias, vale o que realizamos em vida!
Beijus,

Cristina Cebola disse...

Olá Benó!

Deliciei-me com este magnífico texto...senti até por momentos papoilas a colorirem o meu dia...

Beijinho e noite boa

Graça Sampaio disse...

Querida Benó, compreendo bem a sua nostalgia, mas cuidado com o saudosismo...

Beijinhos

luisa disse...

Também gosto dessas papoilas que a Benó chama "descoradas". Não estou a falar da metáfora, claro. Estou a referir-me às flores, na realidade. Julgo que essas papoilas cor-de-rosa são chamadas de dormideiras. :)

Jeanne Geyer disse...

muito tem-se perdido nos tempos modernos, linda a comparação com a cor das flores!!! bjs

http://metamorfosearsemmedo.blogspot.com.br/

ॐ Shirley ॐ disse...

Às vezes, sentimo-nos impotentes diante das intempéries da vida... Mas, precisamos socorrer as inocentes flores...
Beijo, Carmem!!!

Graça Pires disse...

As palavras certas, amiga Benó são as que nos deixam a pensar. Magnífico texto e tão actual.
Um beijo.

Minha vida de campo disse...

Os tempo modernos estão deixando as papoulas perdidas. Parabéns pelo belo texto, ele nos leva a refletir sobre o que está acontecendo no mundo.
Tenha um ótimo dia.