sexta-feira, 27 de novembro de 2009

As Corujas

Durante o dia, o adro da igreja servia de palco às mil brincadeiras dos pardais.

Num corre-corre desordenado, as pernas movimentavam-se em saltos e correrias assim como as asas se agitavam em volteios graciosos para cima e para baixo, para a frente e para trás riscando o ar em figuras abstratas e invisíveis.
Os rapazes da Vila sabiam manter uma convivência perfeita com as aves frequentadoras daquele espaço.

Os dias de verão são longos mas as horas eram poucas para tanta brincadeira impossível de ser vivida e convivida nas grande cidades de onde muitos rapazes vinham para passar férias.

Depois do jantar e nas noites menos enluaradas, era a vez das aves noturnas aparecerem e jogar-se "a prova da coragem".
Os rapazes mais novos e, talvez por isso, mais medrosos, eram desafiados pelos mais velhos a passar em andamento normal, sem correrias, junto à janela da sacristia.

Acontece que uma coruja de grandes olhos negros tinha lá o seu poiso.

Quando o pretendente a valentão se aproximava, era o pássaro que se assustava e fugia para a árvore mais próxima, riscando o ar num vôo lento e silencioso.

A menina ia com o irmão assistir àquelas provas de coragem.
Ela também tinha medo da coruja da sacristia com aquele bico adunco e uma cabeça bem diferente das aves diurnas que esvoaçavam alegremente quando se aproximava.

Hoje, já mulher, continua a assustar-se com as corujas da sacristia.

Ainda esvoaçam muitas por aí.

4 comentários:

O Profeta disse...

Porque será que os pássaros
Cantam na partida do dia
Porque será que um amante ausente
Fica de alma apertada, vazia?

Porque será que as ondas lamentam
Em sussuros de sal no areal
Porque será que as rezas são feitas
Para correr para o longe o perverso mal?


Boa semana


Doce beijo

Vieira Calado disse...

Pois, amiga, as corujas de sacristia...

Aproveito para lhe dizer que há horários mudados em relação aos lançamentos de 5 Poetas de Lagos - 4ª volume, e ao meu Poemas Soltos & dispersos, que já aí mora.
Só serão na próxima semana e irei publicitá-los no blog lagospt.

Mas na próxima 5ª feira, às 6 da tarde, estarei no Centro Cultural de Lagos, para fazer uma palestra:
«A comunicação presencial e não presencial, ao nível da Galáxia.»

Se por acaso estiver por aí...

Pena eu não saber onde andam os meus antigos alunos do Centro de Estudos...

Beijinho

Mocho Falante disse...

belo texto e com referência a um animal que tanto gosto :-)

Nilson Barcelli disse...

Um texto interessante, com um final de dupla interpretação...
Gostei muito, querida amiga.
Beijos.