quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Lápis de cor


Abriu, vagarosamente, a bolsinha de tecido azul mar que a avó Mariana, mãe do pai, lhe fizera e despejou o conteúdo na mão. Contou uma por uma as moedas pretas e brancas que conseguira amealhar no  ano escolar.

Há muito que desejava comprar uma caixa de lápis de cor, daquelas com muitas cores. Para isso era preciso dinheiro. Talvez se ele arranjasse um pequeno trabalho, conseguiria algumas moedas, como por exemplo, fazer uns recados às vizinhas que sempre reclamavam de não terem tempo para ir às compras.

Os pais tinham ordenados pequenos pelo que não tinham disponibilidade financeira para lhe darem mesada. Assim, tinha de arranjar algum dinheiro com o seu próprio esforço. Lembrou-se que poderia ajudar a  D.Maria, visto  ela sofrer  de reumatismo e ter alguma dificuldade em andar, até mesmo, para se deslocar à mercearia do sr. Manuel que ficava no fundo da rua.

Logo que chegava da escola, ia directamente buscar o pão à padaria do sr. Manuel, conforme a mãe lhe recomendara. Depois, passava pela casa da D.Maria que ficava perto da sua, para saber das suas necessidades e trazia tudo duma vez. Ainda lhe sobrava tempo para brincar e fazer os trabalhos da escola.

No fim da semana, mais propriamente, ao domingo, em troca dos serviços prestados, pelos recados feitos, recebia uma moeda, que não era sempre do mesmo valor pois, também, dependia de como estava o porta-moedas da vizinha, mais ou menos abastado.

O Domingo fora, também, o dia escolhido por ele e pelo avô para irem ao café do largo onde se sentavam como dois amigos, velhos conhecidos, nas cadeiras de alumínio que ladeavam a mesa quadrada, de fórmica verde, junto à vidraça que dava para a rua, sempre movimentada naquela hora da tarde e lanchavam. O avô bebia um “garoto” e comia um queque e ele bebia uma Fanta e comia um “caracol” enquanto conversavam sobre as aventuras e desventuras escolares, assunto que agradava ao avô, pois ria-se sempre muito e exclamava – Boa, neto! Tu já sabes muita coisa!

No fim do lanche, os dois caminhavam até casa, onde o avô jantava com ele, com os pais e os gémeos seus irmãos mais novos, e, no fim, antes de voltar para ir dormir, dava-lhe um beijo de boas noites e uma moedinha branca que ele agradecia e ia guardar junto às outras.

Tornou a contar as suas economias e ficou radiante com o total. Já tinha a quantia suficiente para ir à loja da D.Gracinda comprar a caixa de lápis de cor que há tanto tempo desejava. O primeiro desenho colorido com aqueles lápis seria para o avô, o seu melhor amigo. Até já sabia o que iria fazer: um barco como o do avô quando andou na pesca e que ele gostava de admirar na fotografia emoldurada que a mãe, orgulhosamente, exibia em cima da cómoda.

A criança sorriu ao pensar na alegria que o avô iria sentir quando lhe entregasse o seu primeiro desenho pintado com os lápis de cor adquiridos com o dinheiro amealhado na bolsinha azul.




6 comentários:

✿ chica disse...

Que lindo e tão doce conto! Certamente a alegria desse avô seria muita! Adorei! bjs, chioca

CÉU disse...

Viva, querida Benedita!

Uma história dos "velhos" tempos, presumo, pke, agora, penso k já não há crianças assim.

Empenho, fazer por conseguir o que almejam, guardar moedinhas, não, não é preciso, pke as coisas aparecem até sem k as peçam.

Este menino e a "menina" que escreve tem cor, mta cor nas palavras, nas ideias e nas ações.

Beijos, carinhosamente!

Elvira Carvalho disse...

Que lindo texto. Uma ternura.
Um abraço

Graça Pires disse...

Uma história deliciosa, minha amiga Benó. Comovente de tanta ternura...
Um beijo.

Justine disse...

Camaradagem, generosidade e amizade, disso fala a tua história! que bom haver ainda histórias assim...
um beijo, Benó

Ana Freire disse...

Que texto encantador e comovente!...
Os garotos de agora... já não se contentam com uma caixa de lápis... agora querem um telemóvel de ultima geração, com net e jogos... para exercitarem os polegares, durante todo o dia, alheados dos avós, dos pais e do mundo... Há quem diga que a isto se chama progresso... tenho as minhas dúvidas!...
Beijinhos
Ana