quarta-feira, 30 de março de 2016

Renovação

                                                                                     Wassily Kandinsky
 
 
 
 
Vidas de muitos anos estão expostas em prateleiras que forram paredes. Pequenas peças escolhidas com carinho,  colocadas naquele lugar com ternura pelas mãos de quem as comprou. Cada uma tem a sua história, lembra um local, uma viagem, um aniversário, talvez. Ali têm estado sem incomodar, são presença dum passado que já passou e de tanto nos habituarmos à sua silenciosa presença, esquecemo-nos que há uma altura para renovação. É preciso esvaziar as prateleiras, é preciso limpar as gavetas, é preciso fechar o coração e limpar a casa que foi ninho, aconchego, lugar de ternuras e de afetos. Entre aquelas paredes se construíram sonhos, se fomentaram ambições, se planearam aventuras. Houve risos, lágrimas, zangas, alegrias. Vidas vividas num tempo que já não existe. Eternizaram-se momentos em fotografias que se meteram nas molduras  para decorar as prateleiras ou que se prenderam com  cantos colados nas folhas dos álbuns protegidas por papel de seda. Ficou tanta lembrança que é preciso esquecer pois
É urgente renovar.
 
 

 
 
 

segunda-feira, 28 de março de 2016

Ninho


 
Gosto de ouvir o gloterar das cegonhas. Aquele som tão característico do bater dos bicos transporta-me aos meus tempos de menina. Todos os anos, o mesmo casal voltava para o seu ninho construído no torre da igreja para aí depositar os ovos e constituir mais uma família.

As cegonhas são monogâmicas e eu acabava por entabular conversa com as aves que eram sempre as mesmas, num tu cá tu lá, como se na realidade falássemos a mesma linguagem. Via-as, ora uma ora outra, a chocar os ovos donde saíriam os pequenos filhos e esperava ansiosamente o aparecimento das penugentas aves para com pulos e saltos bater palmas de satisfação. Acompanhava o seu desenvolvimento e ficava triste quando, chegado o fim do verão, pais e filhos partiam para outras zonas mais amenas, onde iriam passar o inverno. Os filhotes iriam constituir novas famílias, num outro local, possivelmente,  e eu ficava com a esperança de tornar a ver no ano seguinte as cegonhas minhas conhecidas, e bateria palmas novamente quando se desse o aparecimento das novas crias. Repetir-se-ia o mesmo ciclo da vida.
 
Hoje fotografei cegonhas e voltei a ser menina.
 
fotos e texto de Benó

segunda-feira, 21 de março de 2016

Redes




As redes descansam no cais. Vieram prenhas de peixe brilhante, reluzente nas suas escamas de prata, ouro para os pescadores, pois é peixe que lhes põe o pão na mesa, que os veste e torna possível dar aos seus filhos uma instrução mais cuidada do que aquela que tiveram.

Eles correram descalços pelos areais das praias na procura de búzios e conchas para  brincar; iam à maré para trazer para casa lapas que serviam de almoço com uma mão cheia de figos torrados. Brincaram ao cavalinho corrido e os joelhos tinham feridas constantes que a água salgada desinfetava mas não curava. Passavam frio no inverno e um prato de papas de milho era, muitas vezes, o substituto do peixe que não vinha  nas redes, nos dias e dias de vendaval em que o mar zangado, vá-se lá saber porquê, afastava o peixe para outros mares e o pão faltava na mesa .

Hoje, os seus filhos estudam para doutores, calçam ténis de marca e não querem saber do mar. Não sabem o que é ir à maré mas sabem equilibrar-se numa prancha de surf e deslizar sobre as vagas até à praia. Não sabem o que é alar a rede mas sabem navegar na net. Não saltam ao cavalinho corrido mas saltam de parapente das altas arribas das nossas praias. É isso e muito mais o que as redes que descansam no cais lhes proporcionam quando vêm prenhas de peixe.
Elas também precisam de sol.
 
foto e texto de Benó

sábado, 19 de março de 2016

Passeio à floresta



 
Era a hora das aves regressarem aos ninhos e, assim, fomos neste nosso passeio para o perímetro florestal para uma visita à floresta rodando por um caminho de terra batida e bem batida pois não havia socalcos nem rebolos que me fizessem balançar no meu assento. Não sabíamos ao certo qual o caminho a tomar visto não haver placas indicativas mas pelas indicações que obtivéramos quanto á localização da lagoa, foi fácil encontrar o que desejávamos. Deparámos com uma casa térrea caiada de branco, outrora habitação do guarda florestal e actualmente desabitada, parecendo a sentinela da pequena lagoa cuja flora circundante era digna dum quadro de Monet. O silêncio era absoluto só cortado pelo “plash” das rãs que mergulhavam à nossa aproximação.

 
 
 
 O sol despedia-se e, quem sabe, em noites de lua cheia as fadas, duendes, silfos, elfos, ninfas e outros seres elementais não utilizam este espaço para as suas reuniões e brincadeiras escondendo-se entre as flores amarelas dos tojos ou as azuis e perfumadas do rosmaninho?
 
 fotos e texto de Benó
 

 
 
 

quarta-feira, 16 de março de 2016

Final do dia

 
 
 
 



 
É um local mítico, onde a hora do banho do astro rei, nas águas do grande oceano, é observada por gentes vindas de longe e de perto. Esperam, também, ouvir os deuses nos preparativos das suas magnas reuniões. Mas esses sons divinos não são audíveis por todos os ouvidos mortais e, nem todos os dias há reuniões, claro.

O cabo regurgita de curiosos nesta hora especial do mergulho da grande bola de fogo, especialmente se há calmaria instalada, como costuma acontecer nos meses  de outono e,  assim, podemos sentar-nos nas rochas à espera do tal momento mágico.



Todos querem registar o mergulho do astro-rei, o seu adeus a mais um dia que termina. Telemóveis, pequena máquinas fotográficas ou outras de grande zoom gravam, para mais tarde recordar,  a despedida do sol que irá aquecer os povos do outro lado do mundo.


fotos e texto de Benó

sexta-feira, 11 de março de 2016

Sopra o vento


Entras no pátio sem pedir licença e à porta do meu quarto assobias toda a noite. Ouço-te quando me deito e, se durante o meu sono acordo, continuo a escutar-te em gemidos dolorosos como a pedires para entrar e na minha cama te deitares. Já me habituei aos teus lamentos, já não me atemorizas nem metes medo. Brinca com as folhas, dança com elas, faz equilíbrio nos fios aéreos que ligam as moradias e por onde as pessoas se escutam umas às outras. Continua a assobiar, sê indiscreto quando espreitas por debaixo das saias das mulheres vestidas no seu traje domingueiro e em alegres grupos se dirigem para a missa, continua irritável quando levantas o pó da rua obrigando as pessoas a tapar o nariz e a limpar os olhos às mangas, varre a areia da praia, podes fazer tudo isso que já não me irritas. Estou imunizada aos teus clamores, vento frio e desagradável que ultimamente tanto me tens apoquentado.

 
                                             foto e texto de Benó

terça-feira, 8 de março de 2016

"O Mar o leva o Mar o traz"

 

Sobre a areia, inerte e sem vida o despojo duma gaivota. Não foi o mar que a levou mas foi o mar que a trouxe porque ela não lhe pertence. A maré cheia ali a  depositou no areal dourado, frio e molhado. Enquanto ave voou pelo azul do céu, penetrou nas nuvens, vogou na crista das ondas, mergulhou no verde oceano em busca de alimento. Não sabemos se a sua vida chegou ao fim por imposição da própria vida ou se, pelo contrário, motivos alheios à própria vida puseram um fim à sua vida.
Numa praia, em Sagres, numa manhã de inverno, uma gaivota sem vida.

texto e fotos de Benó