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quinta-feira, 29 de junho de 2017

Trabalhos Manuais







A manhã acorda cinzenta com uma certa humidade no ar que o sol oculto pelo manto de nuvens espessas não consegue secar. Os turistas passeiam-se pelas ruas da vila, já que ir para a praia está impensável nessas primeiras horas matinais. É o comércio local que beneficia com estas caretas do tempo. As lojas de lembranças, principalmente, mostram bastante movimento em entradas e saídas de gente feminina de longas pernas morenas enfiadas em reduzidos calções ou cobertas com saias rodadas e compridas como, antigamente, só a etnia cigana usava.

Nos cafés e esplanadas aguarda-se que o sol volte a brilhar para se desfrutar de mais uns momentos de bronzeamento e algumas braçadas na água fresca do oceano que nos beija.

 Mas há uma loja pequenina, uma capelista, situada na principal rua da vila que atrai a minha atenção. Vende linhas, botões, gregas e fitas de cetim; agulhas de tricô, de croché, de coser; novelos de lã, de algodão, de trapilho;  quadrilé para bordar, panos de loiça enfeitados com picôs nas bainhas, botinhas de bebé.

Noto com satisfação que ainda há pessoas que gostam de fazer estes trabalhos de mãos e que, mesmo entre os turistas, poderemos encontrar uma avó, uma tia ou mãe jovem que acompanha a família nas suas férias algarvias e sabe e gosta de usar as agulhas e os novelos.

Perpassa pela minha lembrança certo grupo de senhoras que à mesa do café com esplanada protegida do vento norte, nos idos anos 60/70, passava a tarde a crochetar e a conversar trocando ideias sobre determinados pontos para cachecóis ou naperons enquanto os maridos se entretinham na pesca à linha.
fotos e texto de Benó

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Inconstante e Caprichosa

                                                                                                                Luisa Delartesa
 

A prima Vera irritante e mimada, visitou o Jardim.
Sorridente ou chorosa ei-la a bailar com as folhas que giram no ar.

Num momento sorri, envia convite para a praia, serve gelados, caipirinhas, abre os braços ao sol, desnuda-se, atira sonoras gargalhadas que se perdem nos bicos dos pardais na busca de sementes, dá cor às rosas, amarelo aos malmequeres, ajuda as espigas a se tornarem trigo.
Inconstante. Caprichosa, ventosa muda o seu estar num instante.
Dum tempo para outro tempo sem contagem de horas, altera o seu humor. Chama as nuvens que numa  obediência real acodem ao chamamento e, cumprindo ordens, tornam o dia luminoso e primaveril num dia escuro, invernoso rasgando-se barulhentas sobre a terra já florida.

Pendem os malmequeres. As papoilas desnudam-se. As amendoeiras sorriem.
É assim a inconstante e caprichosa prima Vera que uns adoram e outros nem por isso.

foto da net
texto de Benó

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Há rosas em Dezembro



Já se acenderam as lareiras.
Há dias de nevoeiro.

Há um manto cinzento que nos cobre, nos envolve, nos arrefece.
Muitos pensamentos nos afligem.
Muitas perguntas sem resposta nos atormentam.

A lenha a arder nos lares atira labaredas que são línguas vermelhas que se abraçam, sobem, largam faúlhas que são estrelas trazendo magia ao nosso olhar e nos mantêm presos ao seu encantamento.

Há muito frio apesar das lareiras acesas.
No fino areal das dunas ainda há corpos estendidos em perfeito prazer que se prolonga por brincadeiras nas frescas  águas do mar azul.

E ainda há rosas em Dezembro.

texto e foto de Benó

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Caminhos



Longo é o caminho a percorrer. Umas vezes a subir, outras nem tanto; umas vezes na linha reta previamente traçada, outras vezes com perigosas curvas em cotovelo que nos aparecem repentinamente e nos obstruem a visão do percurso idealizado. Poderão ser caminhos de asfalto fáceis de pisar ou  caminhos pedregosos, escorregadios, sinuosos demais.





Neste percurso de sobe e desce, de curva e contracurva será obrigatório não perder o rumo; não mudar a direção previamente definida; não estacionar na berma; não exceder as velocidades nem a mínima nem a máxima; evitar as distrações que poderão ocasionar graves acidentes muitas vezes irreparáveis.


É continuar em frente, com o olhar fixo no cimo da montanha mesmo que sobre ela se veja nebulosidade, chuva ou nevoeiro.

foto e texto de Benó

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Ocaso

 
 
 



Aquela bola de fogo que nos aquece e nos prende nos seus fogosos braços, que é sinónimo de vida e fecundidade, esconde-se nas águas do oceano num mergulho suave, sem splash, para ir dar luz e vida a outros seres outras gentes, desde que o mundo é mundo num ritual diário, desde sempre. A bola de fogo incendeia céu e mar, pinta labaredas nas cores mais quentes da paleta divina onde, há poucos momentos, só o azul era cor e, dá lugar a um espetáculo inigualável presenciado por multidões de diversas origens que ficam estarrecidas ante a beleza daquele momento em que o dia já não o é, nem a noite ainda é.

Para culminar, as aves calam-se, o vento abranda o seu queixume e as palmas irrompem num vibrante aplauso à despedida do sol, ali, no fim do mundo. Erguem-se taças borbulhando de líquido que se bebe entre risos e abraços.

E os espectadores mais atentos e místicos ouvirão, certamente, o burburinho provocado pelos deuses que, naquela hora, se reúnem nas salas cavernosas das profundezas do oceano.

Diariamente, no Cabo de S.Vicente.
 
 

 

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Calor


Gretas, rugas, socalcos a desenharem figuras geometricamente diabólicas na pele da terra abrasada pelas labaredas dardejantes do sol.

A crosta terrestre retrai-se, expande-se, cresta, morre de sede e anseia pelas frescas águas do outono. Secam os ribeiros, definham as plantas e, dos trilhos percorridos pelos caminhantes curiosos em mergulhar na bela flora da costa vicentina, solta-se e anda no ar uma poeira vermelha queimada pelo calor que nos suja e se cola à pele.

É o verão que nos oferece a beleza tórrida destes dias sem vento tão habitual aqui, no cabo.

foto e texto de Benó

terça-feira, 1 de novembro de 2011

As pedras que hoje pisei





Hoje andei por aqui.

Pisei as pedras polidas, gastas,

Maltratadas, arrancadas,

Pela areia, pelo tempo, pelo mar.


Guardam segredos de amores e desamores.
Jurados, acabados.

Viram partir marinheiros,
Viram chegar caravelas.
De guerras conhecem os sons,
De santos os seus milagres.

Guardam o reflexo do sol
Abrigam deuses e monstros.

Estas são as pedras que hoje pisei,
Ao entardecer, junto ao mar.




Foto e texto de Benó



sábado, 1 de agosto de 2009

AO SOL

O Sol, meu companheiro de despertar, beija, 360 dias por ano, esta terra onde habito .



O oceano é o seu berço e, muitas vezes quando acorda, vem um pouco envergonhado, dar-me os bons dias ficando de olho aberto-olho fechado a ver-me espreguiçar.
Depois, já mais desperto, os seus braços quentes e fortes brincam comigo enquanto deambulo no meu cumprimento matinal às flores do meu espaço.

Aquece-me, abraça-me, protege-me, oferece vida às plantas, colorido ao jardim e o seu calor é o conforto preciso nas horas mais frias dos meus invernos.
Dá ao meu rosto, por onde muitos sóis já passaram, a cor trigueira e saudável das mulheres do sul mas, também me oferece a calma frescura do pátio sombreado onde brincamos às escondidas e onde me sento e sonho nas horas vazias do dia-a-dia.


No entanto, é naqueles momentos especiais, rápidos e curtos da hora da despedida, quando bem vermelho mergulha neste oceano que me rodeia para ir aquecer o outro lado do mundo, que eu mais aprecio a sua beleza.

Durante breves instantes posso admirar por sobre os telhados, nas copas das árvores, batendo e entrando pelas vidraças das janelas, os quentes matizes do ocre/amarelo/vermelho do seu rosto ao partir, num lindo espectáculo de cores e encandeamento neste Jardim d'abrolhos.

domingo, 27 de abril de 2008

Astro Rei

Contemplar o sol a nascer
É sempre surpreendente
Mas não devemos perder
O esplendor do sol poente.
Faz realçar a paisagem
Algures no horizonte
Salientando a imagem
De monte após outro monte
às vezes em tom rosado
Propenso ao deslumbramento
Mesmo pouco iluminado
É lindo ...aquele momento
..........

Excerto de um poema de Graciete Bravo, que tenho o gosto de ilustrar com fotos minhas.