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domingo, 6 de abril de 2014

Sinopse duma vida


“É a vida. São os anos” Diz a Inácia para justificar as dores nas cruzes que a atormentam, as artroses nos pequenos dedos das mãos, a dificuldade que sente em calçar os sapatos.
A vida não foi fácil para a Inácia nascida em pleno rebentar da II Guerra Mundial, criada na pequena vila onde todos se ajudavam com amizade e com preocupação pelos problemas que sendo individuais se tornavam colectivos.

Os pés andavam nus no verão, livres sobre as ervas, correndo sobre caminhos que serviam homens e animais numa sã vivência e dependência. No inverno, quando a geada queimava os pastos, a Inácia calçava umas botas que já tinham sido beneficiadas com meias-solas e solas inteiras para um qualquer primo ou irmão.

As mãos agora calejadas já foram jovens e cedo começaram a trabalhar para ajudar outras mãos já cansadas de tanto lavar, engomar, cozinhar para todos que eram muitos mas também souberam tecer sonhos de menina, bordar quimeras e desejos de mulher, ofereceram amor em troca de nada.

Hoje, tantos invernos já passados, as costas da Inácia ressentem-se desses frios, dos pesos dos feixes de ervas que transportaram quando ainda os seus ossos eram tenros e em formação.

“É a vida” que foi dura, madrasta para uma MULHER que viveu, sofreu em silêncio, frios, secas, infortúnios porque “há sempre alguém em piores condições”.

“São os anos” duma vida longa, honesta, trabalhosa, difícil para quem nasceu MULHER, pobre e “nunca passou da cepa torta”, passados entre risos e lágrimas, entre os que nascem e são a esperança de melhores dias, os que ficam agarrados ao leme do seu destino, entre as saudades dos que abalam para outras terras com promessas de regresso, vivendo as lembranças dos que vão e já não voltam.

São as dores da fatalidade de quem se acomoda, da MULHER que ama, chora, entrega-se por inteiro e se esquece de si própria.

Eis a sinopse da vida duma MULHER.

texto e foto de Benó

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Caminhos



Longo é o caminho a percorrer. Umas vezes a subir, outras nem tanto; umas vezes na linha reta previamente traçada, outras vezes com perigosas curvas em cotovelo que nos aparecem repentinamente e nos obstruem a visão do percurso idealizado. Poderão ser caminhos de asfalto fáceis de pisar ou  caminhos pedregosos, escorregadios, sinuosos demais.





Neste percurso de sobe e desce, de curva e contracurva será obrigatório não perder o rumo; não mudar a direção previamente definida; não estacionar na berma; não exceder as velocidades nem a mínima nem a máxima; evitar as distrações que poderão ocasionar graves acidentes muitas vezes irreparáveis.


É continuar em frente, com o olhar fixo no cimo da montanha mesmo que sobre ela se veja nebulosidade, chuva ou nevoeiro.

foto e texto de Benó

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Uma árvore no cais

 
Foste semente caída pelo chão. Arrastada pelo vento paraste esquecida, perdida, sozinha entre as pedras. À beira do pontão ficaste e escondida permaneceste para não seres engolida pela voragem da chuva e no esgoto acabares ou no fundo do mar.

O marulhar das ondas, o gemer dos barcos, o trinar dos beijos dos namorados foram a tua companhia enquanto pequeno grão. Aos poucos, a vida descobriu-te e ajudou-te a ver o ouro do sol, o azul do céu e o verde do mar. Bastou um pouco de calor e germinaste, eclodiste, brotaste do escuro. Cresceste, enfeitaste-te de ramos e folhas, em breve serás árvore e as crianças comerão lapas e figos torrados à tua sombra enquanto as mães olham o mar e esperam o regresso dos seus homens nos pequenos barcos de ventres inchados de escamas prateadas.
 
Texto e foto de Benó


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Escadas





Escadas que se sobem.
Escadas que se descem.
Degrau a degrau, sem canseira nem cansaço,
passo a passo vais subindo a escada da vida.
Já paraste nalguns patamares na subida.
Meditaste. Sonhaste.
Olhaste em teu redor e às vezes desceste.
Prosseguiste, subindo, parando e olhando, corrigindo o caminhar ora mais rápido ora mais devagar.
Nesta longa subida que é a vida, no grande e último patamar, quando o relógio te impedir de prosseguir, poderás, então, descansar.
Os teus sonhos serão asas e voarás.
Haverá mais uma estrela no céu.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Alegria e dor







Na vivência diária, bebe-se a vida em golfadas contínuas numa mistura agridoce, de alegria e dor, sem tempo para degustar a beleza de cada instante nas coisas mais simples que nos cercam.