foto e texto de Benó
Ainda era uma adolescente, morena de grandes olhos pretos,
amendoados, orlados de fartas pestanas. Olhos que sempre sorriam para todos e
para a vida que vagarosamente decorria.
Numa alegria constante, espalhava risos e gargalhadas por entre
familiares e por todos os que com ela conviviam. Era o braço direito de sua mãe,
uma preciosa ajuda para tratar e cuidar dos mais novos e dos muito mais velhos
que ainda faziam parte dos viventes naquela casa sempre em constante movimento.
De repente, o seu estar modificou-se.
Andava numa distração permanente. A avó queixava-se dos seus
silêncios e da falta de companhia para jogar ao dominó, o seu jogo preferido ou
para conversar; a mãe, das suas demoras quando a mandava à rua fazer qualquer recado
e os mais pequenos choravam pela falta das brincadeiras habituais.
Dir-se-ia que a casa estava a tornar-se pequena e a
adolescente necessitava de sair mais vezes para conversar com as amigas, de
espaço, de liberdade ou então de estar só, isolada, longe de tudo e todos, a
ouvir o bater descompassado do seu coração.
Com alguma frequência, podíamos vê-la debaixo das árvores do
jardim, deitada na relva, fitando o céu com aqueles seus olhos grandes, absorta
em pensamentos que eram só seus.
Até o pai começou a notar que a sua menina estava diferente e,
como pessoa habituada às mudanças dos humores juvenis e femininos, comentou com
a mãe, igualmente conhecedora dessas coisas e dos jovens corações apaixonados:
-“Há moiro na costa"