Gosto de ouvir o gloterar das cegonhas. Aquele som tão
característico do bater dos bicos transporta-me aos meus tempos de menina.
Recordo, todos os anos, o mesmo casal destas aves voltava
para o seu ninho construído no torre da igreja da minha terra para aí depositar
os ovos e constituir mais uma família.
As cegonhas são monogâmicas e eu, menina, acabava por
entabular conversa com as aves de pernas longas, num tu cá tu lá, como se na
realidade falássemos a mesma linguagem. Via-as, ora uma ora outra, a chocar os
ovos donde sairiam os pequenos filhos e
esperava ansiosamente o aparecimento das penugentas aves para com pulos e saltos bater palmas de
satisfação. Acompanhava o seu desenvolvimento e ficava triste quando, chegado o
fim do verão, pais e filhos partiam para outras zonas mais amenas, onde iriam
passar o inverno. Os filhotes iriam constituir novas famílias e eu ficava com a
esperança de as tornar a ver no ano seguinte e bateria palmas novamente quando
se desse o aparecimento das novas crias.
texto e foto de Benó.
Depois, elas e eu partimos cada qual para o seu destino, com
os pais, para longe. As cegonhas não voltaram para a torre da igreja. Eu voltei
para a terra que me viu nascer.
Fotografei outras cegonhas e voltei a ser menina.
