sábado, 13 de outubro de 2012

O sol e o pau de pita


 
 
 
 
 
 
 
O pau de pita cresceu, cresceu tanto que chegou ao sol. Não se queimou nem ardeu como Ícaro, apenas lhe tocou de mansinho. Era esse o seu sonho.
As duas araucárias ante tanta ousadia e coragem montaram guarda de honra ao jovem filho da velha mãe piteira. Em breve, ele tombará sobre o chão onde também, a sua mãe já mirrada ficou.
São assim os paus de pita desta terra, audazes, atrevidos, ambiciosos, apesar da sua vida curta.
Foi um momento sublime e eu registei-o para mais tarde recordar e escrever sobre as aventuras dos paus de pita deste jardim d'abrolhos.
 
 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Silêncio na praia


 




Os amantes dos derradeiros raios do sol gozavam esses momentos únicos deixando no areal dourado a marca dos seus pés nus.
As sombras alongavam-se vagarosamente pelo mar adentro, enquanto a noite com o seu manto espesso feito de escuridão, encobria os beijos e carícias dos apaixonados.
A lua que a medo começou a abrir os seus olhos prateados, estendeu-se languidamente por sobre a maré que já se enrugava em subtis pregas de renda branca numa brincadeira de leva e traz com as fitas de algas que, por sua vez, corriam atrás da espuma.
Ao longe, muito ao longe vindo das furnas cavadas nas rochas, o som das risadas infantis das conchas que tentavam adormecer embaladas nos braços dos polvos, enquanto os amantes namorados retiravam-se plenos de amor e caricias.
A praia recolhia-se ao silêncio abraçada pelos fios do luar.
 
A noite caminha na procura da aurora e dentro de instantes, com a baixa mar, o areal estará renovado, lavado, sem lembranças  de amores esquecidos.

À claridade de mais um dia ouvir-se-ão risadas, beijos e brincadeiras e os pés nus serão vestidos pela areia dourada que já esqueceu os pedidos e as promessas feitas ao luar.
Será a renovação da vida.


foto e texto de Benó

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Saias de pregas









As saias eram de roda, pregueadas ajustadas à cintura fina marcada pelo cinto bem ajustado. Dançava-se o fox trote, o rock’n roll, a rumba, o bolero mas também a valsa e o tango, bem agarradinhos, apertadinhos, transpirados, nas “matinées” dançantes dos clubes recreativos. E os sonhos criados eram lindos, eram dourados, Subiam alto.


Os corações transbordavam de ilusões.

Amava-se intensamente, para sempre..

Com juras e promessas se entregavam eles a elas e elas a eles com o corpo e com a alma. Inteiras.

Tempo das saias de roda. Pregueadas.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Chuva no jardim



A noite deitou-se calma e serena.Tapou-se com o manto celestial bordado de estrelas e deixou a lua semi-acesa para melhor adormecer mais calmamente.

A manhã chegou carregada e vestida de cinzento. Com um empurrão instalou-se neste princípio de dia.
Uma rajada de vento sul perpassa pelas árvores, abana o toldo que não teve tempo de ser recolhido e imediatamente a chuva cai em grossas lágrimas direitas como fios de prumo formando uma parede de água como, se de repente, uma onda se abatesse sobre o jardim.Há música trovejante e velas relampejantes e ficam lagos que a passarada aproveitará para se banhar.
Foi curto o concerto e mais curta a luminosidade celestial.

O mar não se aborreceu com esta mudança temporal e inesperada e continuou calmo lambendo as pedras do cais.

A relva refrescou-se e o sol rapidamente voltou a brilhar e a aquecer os braços que continuam despidos para gozarem mais um pouco das carícias dos seus raios.



A manhã continuou calma e serena como se nada tivesse acontecidode especial, só os canteiros de flores saciados e refrescados pareciam sorrir neste jardim d'abrolhos.



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Pérolas de água


 
 
As folhas fechavam-se sobre si próprias, uniam-se num abraço fraterno que as protegeria da corrente de ar seco que teimava em cirandar à sua volta queimando-lhes as verdes nervuras por onde corria a seiva da sua vida. Respiravam vagarosamente e entre suaves sussurros e gemidos de secura aguardavam a chegada da humidade noturna que as iria refrescar. Então, poderiam dançar numa coreografia improvisada e sensual que iria chamar a atenção dos pirilampos e das mariposas do jardim.
A noite chegou rapidamente adornada de estrelas douradas, pérolas e brilhantes.



Na pressa de estender o seu manto, o colar, com as mais belas pérolas frescas e transparentes, partiu-se e as pequeninas contas soltaram-se, saltaram e começaram a cair sobre as folhas verdes e sedentas, que as agarraram transformando-as em desejadas gotículas de água fresca.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Despedidas




Nesta hora ambígua em que não é tarde nem é cedo, nem noite nem madrugada, Não sei de almoço ou jantar, nem roupa para engomar. Não importa os brinquedos por aqui e por ali ou os quartos por arrumar. Nem reparo nas almofadas a servirem de colchão pelo chão. Ouço os gritos dos “índios”, os tiros dos “cóbois”, correrias, atropelos. Estou dentro, entro na onda, são muitos os apelos.

Transformo-me.Transfiguro-me.Transporto-me meio século atrás. Sou novamente criança. Companheira de aventuras.
Jogo ao ringue, salto à corda, faço rodas. carreirinhas, castelos de areia.
Rejuvenesço.
Revivo com a petizada os sonhos, as esperanças nos risos, nas lágrimas.
Com abraços.
Agora, é a hora do recreio, brincadeira
Em breve a partida.




Um adeus. Muitos beijos..

Despedidas

sábado, 25 de agosto de 2012

Crianças em férias

 
 
 
 
 
Este verão houve a novidade de aulas de surf para as minhas crianças. Aprenderam a conviver com as ondas, a respeitar a força da maré e a brincar em conjunto numa ajuda de "um por todos e todos por um" deslizando suavemente até ao areal em cima das pranchas que lhes eram destinadas, sem medo e com muita animação e coragem.
 
 
                                   


As férias, aqui no jardim, terminaram.
Instalou-se o silêncio. As crianças partiram e as suas correrias nas disputas amigáveis pela bola deixaram a relva em sossego. Os pardais, de manhã, já podem encher os bicos com as minhocas que, distraídamente, vêm espreitar o sol, admiradas pela ausencia dos pés que constantemente as calcavam.

O toldo rasgado pelo vento  ainda desempenha o seu papel de proporcionar um pouco de sombra e as flores do jasmim já secaram e caíram. O jardim irá aos poucos tomando as suas cores outonais e nas férias de inverno, novamente, as correrias se farão sentir, os risos e as disputas encherão de animação este espaço verde que vai renascer e alindar-se para a próxima época.