Joana.
Uma cara
alegre num corpo franzino. Duas mãos esguias a rematar os braços magros sempre
em movimento. As pernas musculadas habituadas às corridas com os rapazes do
bairro nos grandes desafios que lhe eram propostos pelos mais velhos sempre
prontos a provocações. Os cabelos louros, lisos, presos na altura da nuca com
um laço de fita azul, escorriam até meio das costas. Já tinha pedido à mãe para
cortar o cabelo pois era a primeira coisa a ser agarrada e puxada com a força
dum adolescente zangado, durante as disputas com os outros elementos dos
grupos.
A Joana era a única rapariga entre quatro irmãos. Para
sobreviver naquela selva masculina teve de por de parte as bonecas, as
casinhas, as panelinhas e aprender a jogar ao berlinde, correr pelas ruas com o
arco e até, a dizer palavrões. Teve de se tornar Maria-Rapaz e ser superior aos
rapazes, em todas as brincadeiras.
Passaram muitos anos. Muitas primaveras e muitos outonos.
Muitas praias e muitos areais. Outras disputas foram travadas. Umas vencidas
outras perdidas.
Joana era agora uma presente no grupo que calmamente gozava
o bom sol da beira-mar, num dia de temperatura amena, no principio desta primavera
quente com dias de verão.
Os cabelos perderam a cor dourada, mas, sim, eram lisos e
curtos, embora as “guerras” em que se metia atualmente fossem diferentes das
vividas na sua adolescência, num bairro da periferia lisboeta. Agora conversava
calmamente, agitando as mãos esguias e cuidadas, e sabia sorrir no meio dos
assuntos que se discutiam naquela mesa da esplanada. Assuntos ligeiros, pois,
em férias esquecem-se os problemas que atormentam a maioria dos cidadãos.
Joana que conheci menina rebelde tornara-se mulher que sabia
camuflar a rebeldia.
foto e texto de Benó




