domingo, 12 de fevereiro de 2017

A chuva




A árvore despida, totalmente nua, de braços erguidos ao céu aguardava a água necessária ao seu alimento e renovação.

A chuva chegou com verticalidade, fria, em lágrimas grossas. Umas vezes açoitadas pelo vento indignado com tanto tempo de ausência, outras vezes com tal intensidade que o seu som parecia pedras a caírem sobre tampas de panela.

 A chuva lavou chãos, calçadas, telhados e terraços. Arrastou terra feita lama, pedras, calhaus, galhos, folhas secas que eram tapete de ruas. Escorreu pelas penas pretas dos melros que costumam comer os medronhos maduros, quando bolas pequenas de cor vermelha enfeitando o verde da folhagem. Abriu regos na terra seca, fez regatos que levaram detritos para os ribeiros que se dirigiram para o mar habitado por peixes esfomeados, penetrou na profundeza da terra até onde se situam as raízes fortes das grandes árvores definhando com sede.
A chuva foi desejada.
Em breve, folhas novas, verdejantes começarão a vestir a amendoeira que abençoará a água que agora lhe escorre pelo corpo nu. A erva azeda aproveita todos os pingos que o seu fino caule pode receber para tornar mais amarela a sua flor.
A chuva foi necessária.

Texto e foto de Benó

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Mães



Bendito seja o vosso ventre. Ele foi a caixinha onde, uma a uma, se geraram as quatro vidas que me deram o estatuto de AVÓ. Quatro seres, quatro personalidades, quatro sorrisos, quatro quereres, saíram de vós. Um a um eles foram aparecendo, foram crescendo, foram enchendo o meu mundo, aquecendo os dias da minha existência e vocês com o vosso carinho de MÃE, compreensão, diálogos, dizer NÃO quando é preciso, embora por vezes vos seja difícil, (eu sei) cedências, proibições, acompanhamento, têm-lhes ensinado o que é ser NETO.
A vós, MÂES, para tudo eles recorrem e, sempre disponíveis, ouvem-nos, aconselham, orientam, não perdendo NUNCA,  esse difícil saber, que é o ser MULHER.

Geraram  vidas que começam a aprender novas passadas para se fazerem ao caminho da liberdade, sair do ninho, percorrer os trajetos dum futuro onde irão encontrar obstáculos vários, oceanos de tempestades, montanhas pedregosas, ciladas, ratoeiras, mas que, com os vossos ensinamentos, com o vosso amor e presença, com todo o apoio construído em família, eles saberão ultrapassar.
Vocês são, têm sido o meu suporte, o contributo para eu desempenhar esta função que, por vosso decreto, comecei há dezasseis anos e que espero continuar por muitos mais anos.

Obrigada às duas, R e M, sempre presentes.
texto e foto de Benó

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Abrigos





As pedras reunidas sem preferência de tamanho ou feitio são muralhas aos abrigos construídos num fim de tarde de sol brilhante e quente, em que os corpos se rebolam nas covas, depois de muitas brincadeiras.
Hoje é inverno, a praia está deserta, apenas os caranguejos se atrevem a pequenas corridas e as estrelas do mar atiradas para o areal por algum vómito da maré-baixa jazem inertes na espera que os longos braços da preia-mar as devolvam ao oceano.
As nuvens cinzentas carregadas de água afastaram da beira-mar os mais audaciosos que sempre se afoitam na procura de conchas ou de um ou outro “tesourinho” que a vazante possa deixar nestes dias de maior maresia e que eles recolhem para as suas coleções ou artefactos com que se enfeitam e vendem.

Mas, há sempre alguém mais corajoso, talvez seja mesmo, um construtor dos abrigos de pedras que, cheio de querer e paixão, ali permanece na espera do melhor ângulo que o voo duma ave, do salto acrobático dum peixe para fora de água ou duma vaga orlada de espuma, mais alterosa e caprichosa lhe possa oferecer.
Há momentos inesquecíveis no percurso de um fotógrafo.
Há pedras que guardam segredos.

fotos e texto de Benó




sábado, 21 de janeiro de 2017

Cegonhas







Gosto de ouvir o gloterar das cegonhas. Aquele som tão característico do bater dos bicos transporta-me aos meus tempos de menina.

Recordo, todos os anos, o mesmo casal destas aves voltava para o seu ninho construído no torre da igreja da minha terra para aí depositar os ovos e constituir mais uma família.

As cegonhas são monogâmicas e eu, menina, acabava por entabular conversa com as aves de pernas longas, num tu cá tu lá, como se na realidade falássemos a mesma linguagem. Via-as, ora uma ora outra, a chocar os ovos donde sairiam os pequenos filhos e  esperava ansiosamente o aparecimento das penugentas aves para  com pulos e saltos bater palmas de satisfação. Acompanhava o seu desenvolvimento e ficava triste quando, chegado o fim do verão, pais e filhos partiam para outras zonas mais amenas, onde iriam passar o inverno. Os filhotes iriam constituir novas famílias e eu ficava com a esperança de as tornar a ver no ano seguinte e bateria palmas novamente quando se desse o aparecimento das novas crias.

texto e foto de Benó.

Depois, elas e eu partimos cada qual para o seu destino, com os pais, para longe. As cegonhas não voltaram para a torre da igreja. Eu voltei para a terra que me viu nascer.

Fotografei outras cegonhas e voltei a ser menina.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016




Para as visitas habituais, para as visitas ocasionais, para as visitas curiosas, o meu voto sincero de BOAS FESTAS!

Um Natal cheio de PAZ, muito AMOR e muito PERDÃO para todos os que fazem da maldade o seu dia-a-dia.

Que os vossos corações se encham de LUZ e BONDADE!

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Há Gargalhadas no Ar.

                                                                                        

                    
Na esplanada, gozando do morno sol duma manhã outonal, meia dúzia de gentes entregam-se à leitura das notícias da impressa nacional – DN, Público, CM, Expresso, ou noutro escrevinhar  diferente do nosso, Daily Telegraph, Financial Times, Le Figaro. Há um silêncio de biblioteca instalado por entre as mesas, somente afastado por algum comentário verbal de um ou outro caso mais relevante e que o leitor achou por bem salientar.
Num cenário oposto, na sala contígua à esplanada, ecoam gargalhadas. São 3 jovens, duas são brasileiras e a outra é colombiana que conversam e divertem-se lançando para o ar a melodiosa amostra da sua jovialidade e boa disposição como se um rio liberto das suas margens corresse por sobre os seixos do seu leito.
São mulheres novas, a trabalhar neste país distante da sua pátria, longe de pais, irmãos, amigos, mas, que não deixam, por isso, de expressar alegria em gargalhadas claras e bem audíveis, mesmo que o seu amanhã seja incerto e o sol não tenha calor.
É a juventude e a juventude é feminina, com beleza, alegre como um jardim florido onde as borboletas esvoaçam livres e coloridas. Não há lembranças do que deixaram não há apreensões para o futuro. Apenas desfrutam o presente que é hoje, aqui e agora.

Foto da net.
                              

sábado, 19 de novembro de 2016

Espero-te




Quando, amanhã, vieres visitar-me não tragas flores nem chocolates. Traz-me um canteiro de sorrisos e a doçura do teu olhar. Veste a tua blusa de renda e a saia de roda com a qual me enredaste. Traz raios de sol na tua bolsa, aquela azul da cor do teu olhar.
Quando, amanhã, vieres visitar-me não me tragas a travessa de arroz doce enfeitado com canela, deixa que eu me delicie com o doce néctar da tua boca.
Não me tragas brilhantes e maduros frutos, dá-me o brilho do teu sorriso.
Quando amanhã vieres visitar-me não tragas a garrafa de licor, com que brindávamos cada beijo trocado, deixa que me inebrie com as tuas gargalhadas.

Não quero tigelas de marmelada nem fatias de pão de ló, mas, sim, aspirar o perfume adocicado que do teu corpo emana.
Lembras-te daquela tarde de outono? Só nós dois na sala, o vinil rodava no velho gira discos e, no ar, a voz rouca, inconfundível do Cohen e nós dançávamos, dançávamos numa perfeita simbiose dos nossos corpos. 
Vem.
Vamos amar e recordar.
Porás a música a tocar, e os dois, enlaçados num único abraço,  rodopiaremos ouvindo “Dance me to the end of love”, enquanto o mar, lá fora, cantará num chamamento às estrelas-do-mar.
Espero-te!


foto e texto de Benó