A árvore despida, totalmente nua, de braços erguidos ao céu
aguardava a água necessária ao seu alimento e renovação.
A chuva chegou com verticalidade, fria, em lágrimas grossas.
Umas vezes açoitadas pelo vento indignado com tanto tempo de ausência, outras
vezes com tal intensidade que o seu som parecia pedras a caírem sobre tampas de
panela.
A chuva lavou chãos,
calçadas, telhados e terraços. Arrastou terra feita lama, pedras, calhaus,
galhos, folhas secas que eram tapete de ruas. Escorreu pelas penas pretas dos
melros que costumam comer os medronhos maduros, quando bolas pequenas de cor
vermelha enfeitando o verde da folhagem. Abriu regos na terra seca, fez regatos
que levaram detritos para os ribeiros que se dirigiram para o mar habitado por
peixes esfomeados, penetrou na profundeza da terra até onde se situam as raízes
fortes das grandes árvores definhando com sede.
A chuva foi desejada.
Em breve, folhas novas, verdejantes começarão a vestir a
amendoeira que abençoará a água que agora lhe escorre pelo corpo nu. A erva
azeda aproveita todos os pingos que o seu fino caule pode receber para tornar
mais amarela a sua flor.
A chuva foi necessária.
Texto e foto de Benó






