sábado, 19 de março de 2016

Passeio à floresta



 
Era a hora das aves regressarem aos ninhos e, assim, fomos neste nosso passeio para o perímetro florestal para uma visita à floresta rodando por um caminho de terra batida e bem batida pois não havia socalcos nem rebolos que me fizessem balançar no meu assento. Não sabíamos ao certo qual o caminho a tomar visto não haver placas indicativas mas pelas indicações que obtivéramos quanto á localização da lagoa, foi fácil encontrar o que desejávamos. Deparámos com uma casa térrea caiada de branco, outrora habitação do guarda florestal e actualmente desabitada, parecendo a sentinela da pequena lagoa cuja flora circundante era digna dum quadro de Monet. O silêncio era absoluto só cortado pelo “plash” das rãs que mergulhavam à nossa aproximação.

 
 
 
 O sol despedia-se e, quem sabe, em noites de lua cheia as fadas, duendes, silfos, elfos, ninfas e outros seres elementais não utilizam este espaço para as suas reuniões e brincadeiras escondendo-se entre as flores amarelas dos tojos ou as azuis e perfumadas do rosmaninho?
 
 fotos e texto de Benó
 

 
 
 

quarta-feira, 16 de março de 2016

Final do dia

 
 
 
 



 
É um local mítico, onde a hora do banho do astro rei, nas águas do grande oceano, é observada por gentes vindas de longe e de perto. Esperam, também, ouvir os deuses nos preparativos das suas magnas reuniões. Mas esses sons divinos não são audíveis por todos os ouvidos mortais e, nem todos os dias há reuniões, claro.

O cabo regurgita de curiosos nesta hora especial do mergulho da grande bola de fogo, especialmente se há calmaria instalada, como costuma acontecer nos meses  de outono e,  assim, podemos sentar-nos nas rochas à espera do tal momento mágico.



Todos querem registar o mergulho do astro-rei, o seu adeus a mais um dia que termina. Telemóveis, pequena máquinas fotográficas ou outras de grande zoom gravam, para mais tarde recordar,  a despedida do sol que irá aquecer os povos do outro lado do mundo.


fotos e texto de Benó

sexta-feira, 11 de março de 2016

Sopra o vento


Entras no pátio sem pedir licença e à porta do meu quarto assobias toda a noite. Ouço-te quando me deito e, se durante o meu sono acordo, continuo a escutar-te em gemidos dolorosos como a pedires para entrar e na minha cama te deitares. Já me habituei aos teus lamentos, já não me atemorizas nem metes medo. Brinca com as folhas, dança com elas, faz equilíbrio nos fios aéreos que ligam as moradias e por onde as pessoas se escutam umas às outras. Continua a assobiar, sê indiscreto quando espreitas por debaixo das saias das mulheres vestidas no seu traje domingueiro e em alegres grupos se dirigem para a missa, continua irritável quando levantas o pó da rua obrigando as pessoas a tapar o nariz e a limpar os olhos às mangas, varre a areia da praia, podes fazer tudo isso que já não me irritas. Estou imunizada aos teus clamores, vento frio e desagradável que ultimamente tanto me tens apoquentado.

 
                                             foto e texto de Benó

terça-feira, 8 de março de 2016

"O Mar o leva o Mar o traz"

 

Sobre a areia, inerte e sem vida o despojo duma gaivota. Não foi o mar que a levou mas foi o mar que a trouxe porque ela não lhe pertence. A maré cheia ali a  depositou no areal dourado, frio e molhado. Enquanto ave voou pelo azul do céu, penetrou nas nuvens, vogou na crista das ondas, mergulhou no verde oceano em busca de alimento. Não sabemos se a sua vida chegou ao fim por imposição da própria vida ou se, pelo contrário, motivos alheios à própria vida puseram um fim à sua vida.
Numa praia, em Sagres, numa manhã de inverno, uma gaivota sem vida.

texto e fotos de Benó

sábado, 5 de março de 2016

Granizo

                                                                                                         foto da net

O frio chegou e sem convite escrito ou verbal entrou nas casas do povoado, sentou-se à mesa para aguardar que lhe seja servida uma tigela de caldo bem quente.
À noite, sorrateiramente, irá enfiar-se nas camas frias, entre as mantas esburacadas, camas de um corpo só, mas onde cabem dois ou três que se aconchegam, se abraçam, medrosos do escuro da noite. Quando um se vira, viram-se todos ao mesmo tempo, para não caírem para o chão húmido o que seria uma razão para começarem numa risota difícil de parar. Muitas vezes, é essa risota, que se sobrepõe ao barulho da barriga vazia, que os faz adormecer, corpos bem juntinhos uns aos outros, no aconchego dum único abraço.
O frio chegou e trouxe o granizo que se amontoa nas ruas, junto às portas, nos parapeitos das janelas, cobrindo tudo de branco como a cal com que se envaidecem as casas dos montes. Pequenas bolas, mais pequenas que os berlindes com que a rapaziada brinca, que queimam as mãos, queimam as poucas couves que ainda sobrevivem na horta, as favas, as ervilhas que pouco a pouco  a terra dura, apertada, seca pela longa estiagem, vai oferendo.
Aos poucos, essas pequenas bolas que tudo queimam transformar-se-ão em água que correrá ladeira abaixo formando uma pocinha aqui, outra pocinha ali, bebedouros de aves e de animais noturnos,

O frio chegou.
São precisos cavacos para acender o fogo.


texto de Benó escrito num dia frio deste inverno

 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Gaivotas na rampa


À tardinha, na rampa do cais que os homens do mar usam para varar os barcos que ficam em terra para reparação ou, simplesmente, para aí ficarem nos meses de invernia, as gaivotas gozam o calor dos últimos raios de sol deste dia de inverno.
De quando em vez, como se estivessem numa brincadeira, dão pequenas corridas atrás umas das outras mas, sobretudo, gostam de descansar junto à babugem  escondendo as patas com o seu corpo fofo de penas e fechando os olhos para melhor sentirem o abraço morno do dia que se despede. Assim,conseguem transmitir-nos um sentir de preguiça, de lassidão compatível com as horas mortiças destes fins de tarde, em que os barcos já partiram para a faina da pesca e as horas pararam, no cais.
 
Gosto de as ver levantar voo, elegantemente. Mas, preguiçosas e sem medo, só depois dum forte bater de palmas e de alguma algazarra propositada, elas se erguem num voo lânguido e vagaroso, rumo às nuvens que começam a acastelar-se por sobre as ilhas do Martinhal ou então, abrem as asas e saltitam para mudar de lugar não demonstrando qualquer receio.
Estas são as gaivotas pardas habitantes do cais da Baleeira.
 
Texto e foto de Benó
 
 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Granizada

 

 
 
 
O Jardim foi bombardeado com uma saraivada de granizo. Foi rápida e depressa desapareceu mas ainda deu tempo para registar no Iphone.
Há tempo tempo que não via chuva de pedra!!!
Recordo, quando era criança, em que os invernos eram muito mais rigorosos, chovia com mais intensidade e mais frequência. O granizo era constante nos invernos longos e frios e a criançada que não sabia o que era um frigorifico guardava as pequenas bolas de gelo dentro de um frasco que tinha sido de pomada para os sapatos. Pequenas coisas que nos faziam felizes.
 
foto e texto de Benó

 
 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A joaninha cansada




Esta plantinha é vizinha do Jardim e cresce livremente entre as pedras junto dum muro. Sei que tem propriedades curativas, pois quando eu era garota e os joelhos sofriam a consequência das corridas endiabradas, tirava uma pelicula da folha que depois esfregava no ferimento.
A joaninha (ou será o joaninho?) chegou, e cansada pousou para descansar na folha do Umbigo de Vénus, assim se chama a planta.
Esperteza de inseto!

foto e texto de Benó

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Gato Preto








Não apareceu para almoçar. Nem o barulho da colher na vasilha da refeição nem o chamamento-Bichano!!!!Bichano!!!!! Vem cá!-  traziam de volta o malandreco do gato preto da vizinha.

Pela tardinha, no crepúsculo do fim do dia, já com o sol a pintar o céu com as cores rosadas da sua paleta, ei-lo, o gato preto, o bichano ausente, a olhar para a dona com os olhos incandescentes como se fossem duas brasas, muito sossegado, mãos recolhidas, orelhas espetadas, bigodes hirsutos, ar de rufia. Estava colocado junto à chaminé, satisfeito com o calor que subia da cozinha e de onde tinha uma bela visão para os canteiros das flores. É bem possível que  necessite, esta noite, de levar um qualquer malmequer .

Haverá mais uma noitada pelos campos? Estes meses frios pedem aconchego.
 
foto e texto de Benó

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Cinzas









Restos de labaredas, de chamas vivas.
Combustível que ardeu, foi brasa. Madeira ardendo em línguas de fogo a queimar o ar.
Depois, aos poucos, o oxigénio foi rareando.
Extinguiram-se os calores, foram-se os ardores e as chamas morreram.
Ficaram cinzas, cinzentas, quase frias sem calor, apagadas.

Carvões que são recordações.
 
foto e texto de Benó

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Comunicação


                                                                                                          foto da net

 
Dão-se os bons dias, desejamos as boas noites, um bom fim de semana não a um, mas a cem, duzentos, infinitos amigos espalhados por esse mundo virtual, graças à internet. Comunicamos com todos, mitigamos as saudades de quem está longe vendo-nos no pequeno écran do computador, via éter.
Temos os blogues onde tratamos de culinária, de desporto, jardinagem, arte, música, literatura e por aí fora. Sentimos a opinião de quem nos “segue” .  
Nunca estamos sós. Com os telemóveis chamamos os bombeiros, uma ambulância, conversamos quer estejamos dentro ou fora de casa, na rua ou no quintal. Já não se guardam fotos em álbuns que se tornaram uma antiguidade. Transportam-se connosco para onde quer que se vá, assim como livros, jornais, revistas sem pesarem nem fazerem volume no saco de viagem.

Mas há sempre o reverso da medalha.
Com o uso e abuso deste modo de comunicar, fica o  receio de que possa perder-se o doce contacto pessoal e familiar entre pais e filhos, marido e mulher, irmãos, amizades e se vá esquecendo “como é doce a tua voz”.

Esperemos que esta geração de jovens adolescentes , pequenos seres protegidos e amados pela família, se lembrem sempre  como se escreve com um lápis, como fazer cálculos mentais e, principalmente, de como é agradável dar um abraço, ouvir e dizer: AMO-TE! 
Fica o apelo: Não se esqueçam de conversar como beijam: com a boca.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Frescura matinal

                       
 
 
 
 
                   
 
                                                foto e texto de Benó

A frescura da brisa matinal entra pela janela aberta do meu sentir  e vem refrescar-me o rosto ainda quente da noite.
Os olhos semicerrados com o peso dos sonhos vividos na escuridão do quarto olham o sol que se ergue das profundezas oceânicas saudado pelas gaivotas  que em volteios esvoaçantes estão a reclamar alimento.

A areia húmida da maré alta convida a caminhar. Com passadas curtas passeio-me por dentro da manhã ainda criança e, com a alegria que me é própria,  bato as palmas.  Os pássaros da beira-mar levantam voo num movimento vagaroso de início para, depois com mais energia, erguerem-se no ar e pousar mais à frente onde executam danças aladas de encantar.
Com as mãos ainda frias, começo a apanhar conchas, búzios, pedras raiadas, pequenas algas, cascas de lapas e de mexilhões trazidas para a areia embrulhadas nas rendas brancas com que o mar se enfeita nas marés. Guardo-os numa caixa de espuma azul céu.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Ciprestes




No Jardim d'abrolhos, além de flores, arbustos, palmeiras e algumas ervas daninhas, também há ciprestes, entre outros exemplares de grande porte .  Embora para algumas pessoas seja uma árvore de cemitérios para o Jardim, elas são o símbolo dos jardins romanos. Altivos, eretos, esguios e pontiagudos lembram o poderio romano dos seus palácios com belos espaços por onde se passeavam as cortesãs.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Caixas, caixinhas, gavetas


                                                                                                   foto e texto de Benó

 
Caixas, caixinhas, caixotes tudo serve para guardar, ao longo da nossa existência,  os mais diversos objetos que nos contam histórias, nos falam de vivências, nos dizem de momentos que formaram um todo que é o nosso passado.
Fotos e panfletos de viagens feitas a países doutros mundos diferentes do nosso; os caracóis dos filhos, os primeiros dentes que caíram, as botas que calçaram quando nasceram. Os livros da instrução primária, os diplomas, as sebentas do liceu, os poemas escritos na idade das paixões, cartas, postais, coisas do último século. 
Deitar fora? Queimar? Não! São parte de nós.
Seria como se se apagasse capítulos do livro da nossa história. Como se nos arrancassem bocados do nosso ser. Tudo o que guardamos são peças dum jogo que temos vindo a fazer ao longo da vida, em que em cada dia se faz um lance.
Mas agora o mundo onde habitamos tornou-se pequeno para manter tanta recordação e, por isso, as caixas foram banidas e substituídas por gavetas onde se arruma o dia a dia sem pensar no amanhã, ali tão perto.

Só o coração tem espaço ilimitado para guardar dentro de si todas as recordações.
E são tantas!

 


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

MORCELAS E CHOURIÇAS





Enquanto a amendoeira espera as suas flores brancas e rosadas, o campo amarelece com a erva azeda.
 
Apetece-me correr por ali, molhar os pés com a geada, apanhar um raminho destas singelas flores e enfeitar com ele, como se fosse uma fina jarra de cristal, um pequeno frasco vazio da pomada dos sapatos que também podia servir, quando era caso disso, para guardar as pedras de granizo que se acumulavam junto ao muro do quintal, nos invernos em que a granizada era frequente.
 
Também podia fazer grandes varas de chouriças e enfiá-las numa cana para ir vender pela rua. Era sempre a minha avó que mas comprava por dois rebuçados ao par. 
Trabalho fácil.  Fazia uma pequena incisão com a unha na parte  grossa do caule e aí enfiava a parte delgada da erva, de onde saía a flor, formando uma rodela. Enquanto carregava ao ombro a cana com os supostos enchidos, apregoava alegremente com a minha voz de moça pequena algarvia de gema “Quem quer comprar morcelas e chouriças?” Então,  aparecia a minha cliente habitual que me comprava toda a produção. 
 
Aconteceu há muitos, muitos anos.

 
 
 
texto e foto de Benó

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

FELIZ 2016!!!!!






Antes de se formularem os desejos para o ano que agora começa, creio que também é importante agradecer o que se recebeu no ano que acabou.

Muitas foram as desgraças acontecidas por esse mundo mas há sempre uma réstia de luz seja no riso duma criança ou no abraço dum pobre sem abrigo..

Desejamos mais saúde, mais alegria em todos os rostos, trabalho para quem o queira, pão em todas as mesas, sol e chuva na medida justa, nas épocas certas. Também desejamos o fim das guerras pessoais e mundiais, estas mais difíceis de se conseguirem, assim como o fim da pobreza espiritual e material.
Enquanto somos gente sentimos sempre a esperança dum amanhã melhor.
Tanta coisa para mudar!
Haja força e vontade para o conseguirmos.

foto e texto de Benó

domingo, 20 de dezembro de 2015

Boas Festas


                                                                                                                   foto da net



A estação mais fria do ano tem o seu início este mês. Em paradoxo, os dias começam a ser maiores, tal como diz o ditado popular “Pelo Natal crescem o passo dum pardal”. Se é inverno, se os dias são cinzentos, frios, húmidos e as noites ainda mais compreende-se por que razão as horas diurnas prolongam-se e dão-nos uns momentos de mais claridade. “Janeiro fora uma hora e quem bem contar hora e meia há de achar.” É verdade e, no fim de Janeiro, já se nota alguma diferença na luz do dia.
Para amenizar essas agruras invernosas, promove-se festas, almoços, jantares entre colegas, entre amizades, oferece-se presentes, troca-se prendas de “amigos secretos”, há animação musical nas ruas. Grandes árvores de Natal cheias de luzes coloridas a piscar, Pais Natal gorduchos e barbudos sentados em grandes tronos oferecem o seu colo às crianças onde serão fotografadas, para mais tarde recordar. Os centros comerciais precisam destas atrações  para movimentar as caixas registadoras.

É o mês das doçuras, dos perdões, dos beijos e dos abraços retardados, do rever familiares que estavam longe ou mesmo que, estando perto, parecem estar longe tão longo é o tempo que estão sem se ver.

Deveria ser Natal todos os meses.
 
Festas Felizes para todos com as rosas do Jardim. Em Janeiro aqui nos encontraremos.
Até lá!!!

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O Baile



A música irrompe pela sala em alegres sons oferecidos pelo piano e pela flauta do conjunto musical escolhido para animar a matinée dançante naquele final de tarde.
Não há o fulgor das saias rodadas, dos vestidos feitos à medida, pela modista, especialmente, para levar ao baile, dos sapatos bem engraxados, dos fatos para eles que, coitados, transpiravam enfiados nas camisas “slim-line” de colarinhos engomados e de gravata a apertar o pescoço, dos, já longínquos, anos 60.
Hoje como ontem, aos primeiros acordes, nota-se uma certa demora na abertura do baile.
As damas são mais ousadas, têm mais à vontade e, normalmente, são elas quem primeiro pisa a pista numa dança a duas. Vencida a dificuldade de iniciar, rapidamente o espaço se enche com pares que mexem as ancas, rodopiam os corpos, erguem os braços, afastam-se para depois se enlaçarem e continuarem, freneticamente, ao som dos ritmos latino-americanos tão em moda actualmente e que os músicos atiram para o ar em altos decibéis.

Dança-se e aquece-se. As mãos transpiram e as respirações tornam-se um pouco ofegantes.
Os trajes de agora são informais e tanto elas como eles vestem “jeans” que até podem ter buracos, rasgões, estar coçadas, ter as bainhas puídas de tanto roçar no chão e calçam “ténis” de marca. Elas também se apresentam de sapatos rasos ou de grandes e altos saltos .

Pelas cadeiras colocadas junto às paredes sentam-se eles e sentam-se elas. Também podemos ver elas no colo deles ou eles no colo delas. Se o ritmo agrada, levantam-se, agarram-se, dançam de corpos colados ou afastados como se cada um estivesse sozinho, sem par.
Foi assim, numa tarde dançante num clube recreativo cheio de jovens de várias idades.


foto e texto de Benó



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Há rosas em Dezembro



Já se acenderam as lareiras.
Há dias de nevoeiro.

Há um manto cinzento que nos cobre, nos envolve, nos arrefece.
Muitos pensamentos nos afligem.
Muitas perguntas sem resposta nos atormentam.

A lenha a arder nos lares atira labaredas que são línguas vermelhas que se abraçam, sobem, largam faúlhas que são estrelas trazendo magia ao nosso olhar e nos mantêm presos ao seu encantamento.

Há muito frio apesar das lareiras acesas.
No fino areal das dunas ainda há corpos estendidos em perfeito prazer que se prolonga por brincadeiras nas frescas  águas do mar azul.

E ainda há rosas em Dezembro.

texto e foto de Benó

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O repuxo


 
 
O repuxo cantava a frescura dum fim de tarde enquanto as damas nas suas saias rodadas pisavam levemente o chão e conversavam sobre os últimos escândalos da corte. As mãos pequenas enfiadas em luvas de renda seguravam o leque francês pintado com figuras de coloridas aves e abanavam os rostos protegidos por chapéus de grandes abas atadas por debaixo do queixo com fitas de cetim. Poderia ser um quadro romântico do sec. XVII ou XVIII em que havia reis e rainhas e muito povo com fome.
Hoje, do terraço onde me encontro, nesta hora admirável de final do dia, em que o sol, por obrigações celestiais, tem de nos abandonar, posso admirar o mesmo repuxo rodeado por canteiros de sebes baixas, ouvir o cantar da água que jorra elevando-se no ar para tornar a cair na bacia de pedra que o circunda mas, não vejo damas de fartas saias rodadas trocando entre si pequenos segredos com risinhos à mistura. Somente os hóspedes deste palácio, agora tornado unidade hoteleira, por ali deambulam em alegres conversas envergando frescos calções e blusas vaporosas que assim o exige a agradável temperatura deste outono algarvio.
Fecho os olhos e a brisa da tarde refresca-me o rosto e os pensamentos.

Não temos rei nem rainha mas o povo continua com fome.
 
foto e texto de Benó