sexta-feira, 11 de março de 2016

Sopra o vento


Entras no pátio sem pedir licença e à porta do meu quarto assobias toda a noite. Ouço-te quando me deito e, se durante o meu sono acordo, continuo a escutar-te em gemidos dolorosos como a pedires para entrar e na minha cama te deitares. Já me habituei aos teus lamentos, já não me atemorizas nem metes medo. Brinca com as folhas, dança com elas, faz equilíbrio nos fios aéreos que ligam as moradias e por onde as pessoas se escutam umas às outras. Continua a assobiar, sê indiscreto quando espreitas por debaixo das saias das mulheres vestidas no seu traje domingueiro e em alegres grupos se dirigem para a missa, continua irritável quando levantas o pó da rua obrigando as pessoas a tapar o nariz e a limpar os olhos às mangas, varre a areia da praia, podes fazer tudo isso que já não me irritas. Estou imunizada aos teus clamores, vento frio e desagradável que ultimamente tanto me tens apoquentado.

 
                                             foto e texto de Benó

terça-feira, 8 de março de 2016

"O Mar o leva o Mar o traz"

 

Sobre a areia, inerte e sem vida o despojo duma gaivota. Não foi o mar que a levou mas foi o mar que a trouxe porque ela não lhe pertence. A maré cheia ali a  depositou no areal dourado, frio e molhado. Enquanto ave voou pelo azul do céu, penetrou nas nuvens, vogou na crista das ondas, mergulhou no verde oceano em busca de alimento. Não sabemos se a sua vida chegou ao fim por imposição da própria vida ou se, pelo contrário, motivos alheios à própria vida puseram um fim à sua vida.
Numa praia, em Sagres, numa manhã de inverno, uma gaivota sem vida.

texto e fotos de Benó

sábado, 5 de março de 2016

Granizo

                                                                                                         foto da net

O frio chegou e sem convite escrito ou verbal entrou nas casas do povoado, sentou-se à mesa para aguardar que lhe seja servida uma tigela de caldo bem quente.
À noite, sorrateiramente, irá enfiar-se nas camas frias, entre as mantas esburacadas, camas de um corpo só, mas onde cabem dois ou três que se aconchegam, se abraçam, medrosos do escuro da noite. Quando um se vira, viram-se todos ao mesmo tempo, para não caírem para o chão húmido o que seria uma razão para começarem numa risota difícil de parar. Muitas vezes, é essa risota, que se sobrepõe ao barulho da barriga vazia, que os faz adormecer, corpos bem juntinhos uns aos outros, no aconchego dum único abraço.
O frio chegou e trouxe o granizo que se amontoa nas ruas, junto às portas, nos parapeitos das janelas, cobrindo tudo de branco como a cal com que se envaidecem as casas dos montes. Pequenas bolas, mais pequenas que os berlindes com que a rapaziada brinca, que queimam as mãos, queimam as poucas couves que ainda sobrevivem na horta, as favas, as ervilhas que pouco a pouco  a terra dura, apertada, seca pela longa estiagem, vai oferendo.
Aos poucos, essas pequenas bolas que tudo queimam transformar-se-ão em água que correrá ladeira abaixo formando uma pocinha aqui, outra pocinha ali, bebedouros de aves e de animais noturnos,

O frio chegou.
São precisos cavacos para acender o fogo.


texto de Benó escrito num dia frio deste inverno

 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Gaivotas na rampa


À tardinha, na rampa do cais que os homens do mar usam para varar os barcos que ficam em terra para reparação ou, simplesmente, para aí ficarem nos meses de invernia, as gaivotas gozam o calor dos últimos raios de sol deste dia de inverno.
De quando em vez, como se estivessem numa brincadeira, dão pequenas corridas atrás umas das outras mas, sobretudo, gostam de descansar junto à babugem  escondendo as patas com o seu corpo fofo de penas e fechando os olhos para melhor sentirem o abraço morno do dia que se despede. Assim,conseguem transmitir-nos um sentir de preguiça, de lassidão compatível com as horas mortiças destes fins de tarde, em que os barcos já partiram para a faina da pesca e as horas pararam, no cais.
 
Gosto de as ver levantar voo, elegantemente. Mas, preguiçosas e sem medo, só depois dum forte bater de palmas e de alguma algazarra propositada, elas se erguem num voo lânguido e vagaroso, rumo às nuvens que começam a acastelar-se por sobre as ilhas do Martinhal ou então, abrem as asas e saltitam para mudar de lugar não demonstrando qualquer receio.
Estas são as gaivotas pardas habitantes do cais da Baleeira.
 
Texto e foto de Benó
 
 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Granizada

 

 
 
 
O Jardim foi bombardeado com uma saraivada de granizo. Foi rápida e depressa desapareceu mas ainda deu tempo para registar no Iphone.
Há tempo tempo que não via chuva de pedra!!!
Recordo, quando era criança, em que os invernos eram muito mais rigorosos, chovia com mais intensidade e mais frequência. O granizo era constante nos invernos longos e frios e a criançada que não sabia o que era um frigorifico guardava as pequenas bolas de gelo dentro de um frasco que tinha sido de pomada para os sapatos. Pequenas coisas que nos faziam felizes.
 
foto e texto de Benó

 
 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A joaninha cansada




Esta plantinha é vizinha do Jardim e cresce livremente entre as pedras junto dum muro. Sei que tem propriedades curativas, pois quando eu era garota e os joelhos sofriam a consequência das corridas endiabradas, tirava uma pelicula da folha que depois esfregava no ferimento.
A joaninha (ou será o joaninho?) chegou, e cansada pousou para descansar na folha do Umbigo de Vénus, assim se chama a planta.
Esperteza de inseto!

foto e texto de Benó

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Gato Preto








Não apareceu para almoçar. Nem o barulho da colher na vasilha da refeição nem o chamamento-Bichano!!!!Bichano!!!!! Vem cá!-  traziam de volta o malandreco do gato preto da vizinha.

Pela tardinha, no crepúsculo do fim do dia, já com o sol a pintar o céu com as cores rosadas da sua paleta, ei-lo, o gato preto, o bichano ausente, a olhar para a dona com os olhos incandescentes como se fossem duas brasas, muito sossegado, mãos recolhidas, orelhas espetadas, bigodes hirsutos, ar de rufia. Estava colocado junto à chaminé, satisfeito com o calor que subia da cozinha e de onde tinha uma bela visão para os canteiros das flores. É bem possível que  necessite, esta noite, de levar um qualquer malmequer .

Haverá mais uma noitada pelos campos? Estes meses frios pedem aconchego.
 
foto e texto de Benó