Entras no pátio sem pedir licença e à porta do meu quarto assobias toda a noite. Ouço-te quando me deito e, se durante o meu sono acordo, continuo a escutar-te em gemidos dolorosos como a pedires para entrar e na minha cama te deitares. Já me habituei aos teus lamentos, já não me atemorizas nem metes medo. Brinca com as folhas, dança com elas, faz equilíbrio nos fios aéreos que ligam as moradias e por onde as pessoas se escutam umas às outras. Continua a assobiar, sê indiscreto quando espreitas por debaixo das saias das mulheres vestidas no seu traje domingueiro e em alegres grupos se dirigem para a missa, continua irritável quando levantas o pó da rua obrigando as pessoas a tapar o nariz e a limpar os olhos às mangas, varre a areia da praia, podes fazer tudo isso que já não me irritas. Estou imunizada aos teus clamores, vento frio e desagradável que ultimamente tanto me tens apoquentado.
foto e texto de Benó






