quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Gato Preto








Não apareceu para almoçar. Nem o barulho da colher na vasilha da refeição nem o chamamento-Bichano!!!!Bichano!!!!! Vem cá!-  traziam de volta o malandreco do gato preto da vizinha.

Pela tardinha, no crepúsculo do fim do dia, já com o sol a pintar o céu com as cores rosadas da sua paleta, ei-lo, o gato preto, o bichano ausente, a olhar para a dona com os olhos incandescentes como se fossem duas brasas, muito sossegado, mãos recolhidas, orelhas espetadas, bigodes hirsutos, ar de rufia. Estava colocado junto à chaminé, satisfeito com o calor que subia da cozinha e de onde tinha uma bela visão para os canteiros das flores. É bem possível que  necessite, esta noite, de levar um qualquer malmequer .

Haverá mais uma noitada pelos campos? Estes meses frios pedem aconchego.
 
foto e texto de Benó

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Cinzas









Restos de labaredas, de chamas vivas.
Combustível que ardeu, foi brasa. Madeira ardendo em línguas de fogo a queimar o ar.
Depois, aos poucos, o oxigénio foi rareando.
Extinguiram-se os calores, foram-se os ardores e as chamas morreram.
Ficaram cinzas, cinzentas, quase frias sem calor, apagadas.

Carvões que são recordações.
 
foto e texto de Benó

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Comunicação


                                                                                                          foto da net

 
Dão-se os bons dias, desejamos as boas noites, um bom fim de semana não a um, mas a cem, duzentos, infinitos amigos espalhados por esse mundo virtual, graças à internet. Comunicamos com todos, mitigamos as saudades de quem está longe vendo-nos no pequeno écran do computador, via éter.
Temos os blogues onde tratamos de culinária, de desporto, jardinagem, arte, música, literatura e por aí fora. Sentimos a opinião de quem nos “segue” .  
Nunca estamos sós. Com os telemóveis chamamos os bombeiros, uma ambulância, conversamos quer estejamos dentro ou fora de casa, na rua ou no quintal. Já não se guardam fotos em álbuns que se tornaram uma antiguidade. Transportam-se connosco para onde quer que se vá, assim como livros, jornais, revistas sem pesarem nem fazerem volume no saco de viagem.

Mas há sempre o reverso da medalha.
Com o uso e abuso deste modo de comunicar, fica o  receio de que possa perder-se o doce contacto pessoal e familiar entre pais e filhos, marido e mulher, irmãos, amizades e se vá esquecendo “como é doce a tua voz”.

Esperemos que esta geração de jovens adolescentes , pequenos seres protegidos e amados pela família, se lembrem sempre  como se escreve com um lápis, como fazer cálculos mentais e, principalmente, de como é agradável dar um abraço, ouvir e dizer: AMO-TE! 
Fica o apelo: Não se esqueçam de conversar como beijam: com a boca.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Frescura matinal

                       
 
 
 
 
                   
 
                                                foto e texto de Benó

A frescura da brisa matinal entra pela janela aberta do meu sentir  e vem refrescar-me o rosto ainda quente da noite.
Os olhos semicerrados com o peso dos sonhos vividos na escuridão do quarto olham o sol que se ergue das profundezas oceânicas saudado pelas gaivotas  que em volteios esvoaçantes estão a reclamar alimento.

A areia húmida da maré alta convida a caminhar. Com passadas curtas passeio-me por dentro da manhã ainda criança e, com a alegria que me é própria,  bato as palmas.  Os pássaros da beira-mar levantam voo num movimento vagaroso de início para, depois com mais energia, erguerem-se no ar e pousar mais à frente onde executam danças aladas de encantar.
Com as mãos ainda frias, começo a apanhar conchas, búzios, pedras raiadas, pequenas algas, cascas de lapas e de mexilhões trazidas para a areia embrulhadas nas rendas brancas com que o mar se enfeita nas marés. Guardo-os numa caixa de espuma azul céu.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Ciprestes




No Jardim d'abrolhos, além de flores, arbustos, palmeiras e algumas ervas daninhas, também há ciprestes, entre outros exemplares de grande porte .  Embora para algumas pessoas seja uma árvore de cemitérios para o Jardim, elas são o símbolo dos jardins romanos. Altivos, eretos, esguios e pontiagudos lembram o poderio romano dos seus palácios com belos espaços por onde se passeavam as cortesãs.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Caixas, caixinhas, gavetas


                                                                                                   foto e texto de Benó

 
Caixas, caixinhas, caixotes tudo serve para guardar, ao longo da nossa existência,  os mais diversos objetos que nos contam histórias, nos falam de vivências, nos dizem de momentos que formaram um todo que é o nosso passado.
Fotos e panfletos de viagens feitas a países doutros mundos diferentes do nosso; os caracóis dos filhos, os primeiros dentes que caíram, as botas que calçaram quando nasceram. Os livros da instrução primária, os diplomas, as sebentas do liceu, os poemas escritos na idade das paixões, cartas, postais, coisas do último século. 
Deitar fora? Queimar? Não! São parte de nós.
Seria como se se apagasse capítulos do livro da nossa história. Como se nos arrancassem bocados do nosso ser. Tudo o que guardamos são peças dum jogo que temos vindo a fazer ao longo da vida, em que em cada dia se faz um lance.
Mas agora o mundo onde habitamos tornou-se pequeno para manter tanta recordação e, por isso, as caixas foram banidas e substituídas por gavetas onde se arruma o dia a dia sem pensar no amanhã, ali tão perto.

Só o coração tem espaço ilimitado para guardar dentro de si todas as recordações.
E são tantas!

 


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

MORCELAS E CHOURIÇAS





Enquanto a amendoeira espera as suas flores brancas e rosadas, o campo amarelece com a erva azeda.
 
Apetece-me correr por ali, molhar os pés com a geada, apanhar um raminho destas singelas flores e enfeitar com ele, como se fosse uma fina jarra de cristal, um pequeno frasco vazio da pomada dos sapatos que também podia servir, quando era caso disso, para guardar as pedras de granizo que se acumulavam junto ao muro do quintal, nos invernos em que a granizada era frequente.
 
Também podia fazer grandes varas de chouriças e enfiá-las numa cana para ir vender pela rua. Era sempre a minha avó que mas comprava por dois rebuçados ao par. 
Trabalho fácil.  Fazia uma pequena incisão com a unha na parte  grossa do caule e aí enfiava a parte delgada da erva, de onde saía a flor, formando uma rodela. Enquanto carregava ao ombro a cana com os supostos enchidos, apregoava alegremente com a minha voz de moça pequena algarvia de gema “Quem quer comprar morcelas e chouriças?” Então,  aparecia a minha cliente habitual que me comprava toda a produção. 
 
Aconteceu há muitos, muitos anos.

 
 
 
texto e foto de Benó