quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Sonhos


                          




Nuvens cinzentas como as cinzas frias da lareira ou vermelhas como as papoilas que nascem entre os trigais, rosadas como as rosas do jardim, em vários tons, com vários matizes.  Elas aparecem rapidamente, grandes ou pequenas, em farripas ou em novelos, nos mais diversos formatos, tapam o sol por momentos e desaparecem restituindo-lhe a função de nos iluminar e aquecer.
Podem decorar o espaço celeste com lindas fantasias ou torná-lo escuro e triste como uma noite sem lua nem estrelas.

As nuvens lembram os sonhos que chegam e se instalam no nosso pensar sem o nosso querer mas, tal como elas leves e etéreas, desfazem-se, desvanecem-se ou tornam-se grossos e escuros como os pesadelos em que muitas vezes eles se transformam.

 
                                                                                  fotos e texto de Benó

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O vento chora




O vento chegou molhado, apressado.
Deteve-se à minha porta num choro persistente e incomodativo. No seu lamento conta as misérias que viu durante o percurso que fez até chegar aqui. Vem do norte, atravessou países sem calor, com muros como fronteiras, viu gente sobrevivente que outros ventos seus irmãos levaram para essas terras mais frias que o berço onde nasceram, pais e mães que perderam os seus filhos, filhos órfãos que irão lembrar sempre o calor dos braços maternos. Fome e doença o vento viu.

Abandono, indiferença.
À minha porta, o vento chora num silvo prolongado e agudo que me faz tremer.

foto e texto de Benó

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Sem Espera.




                                                                                                               Di Cavalcanti


Numa correria desenfreada vão-se os dias, as horas. Passa a infância, deixámos de brincar   e dum momento para o outro cortámos as tranças, ultrapassámos todas as dificuldades da adolescência  e somos gente adulta.
É tudo a correr e o relógio sempre a girar não nos dá descanso nem para apreciarmos os bons momentos de convivência com os amigos, o prazer de ler e degustar as letras que formam palavras dos livros que enchem prateleiras e que esperam sossegadamente a hora de os pegarmos e mergulharmos fundo no desconhecido das suas histórias. Nem nos apercebemos que o tempo passa por nós numa corrida louca sem regresso, para levar, muitas vezes, os sonhos e a esperança deixando-nos de mãos vazias num tempo já sem tempo para as encher.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A Arte de Saber Viver



O saber viver é uma arte que nem todos dominam neste universo onde coabitamos e onde é cada vez mais difícil as relações entre os humanos.

Assim como a arte de jogar futebol, de navegar, as artes marciais, a tão importante arte de saber conversar, cada dia mais difícil dado o mutismo em que os jovens caem com o uso do "chat" nas redes sociais, esta também tem de se aprender.

 A arte de saber sorrir, de saber ler, de saber estar à mesa, de respeitar o próximo são ensinamentos que devem ser diários e constantes junto dos jovens de hoje para que os homens de amanhã saibam usar a inteligência aliada à delicadeza e à humildade.

Tudo isto e muito mais é útil e necessário para se aprender também, a mais difícil de todas: a arte de SER FELIZ.

São artes de aprendizagem demoradas que requerem paciência e perseverança de quem ensina e tem a seu cargo  a formação de rapazes e raparigas, abrolhos que serão flores neste jardim da vida onde as ervas daninhas, parasitas e espinhos proliferam em demasia.
 
 
texto de Benó
foto da net

 

 



domingo, 11 de outubro de 2015

Fome





Vieram de longe ou de perto. Tanto faz!

Trazem a fome no bico, podia ser na boca, tanto faz.
São aves, podiam ser pessoas.

No cais, comem os sobejos das refeições dos pescadores. Aqui lutam pelas migalhas que deposito sobre a relva, zangam-se pelos restos de pão que algumas conseguem roubar para, em seguida, num voo rápido o perderem.
 
                                 
São aves mas podiam não ser. Tanto faz.
Abrem e batem as asas e grasnam num som agudo feroz de bico aberto. Fazem pequenas investidas a uma ou outra mais afoita quando se atreve a meter um nico de alimento para o papo. Podia ser a barriga. Tanto faz.

É a fome adulta que as torna violentas. Que sabemos nós, se os filhos no ninho não esperam pelo alimento tão disputado?
Fome dos filhos mais sentida, origem de disputas e escaramuças, guerras, mortandade.

Nem só as aves têm fome.


fotos e texto de Benó
 

domingo, 4 de outubro de 2015

Uma tarde


 

O vento a acariciar as águas calmas do porto de abrigo provoca-lhe arrepios indisfarçáveis. Os barcos mesmo ancorados tremem e agitam-se na tarde serena de outubro. Ao longe, no fim do paredão, o pequeno farol ficará acordado toda a noite na sua função de avisar quem entra e quem sai.
Junto a si, nas pedras submersas onde se apoia, fervilha vida, noite e dia. Sempre.

Os jovens namorados procuram a protecção da sua sombra para se acariciarem na provocação de arrepios e ternuras pela primeira vez sentidas.
Sempre igual e sempre diferente esta água que se agita, treme, nos refresca, nos dá o alimenta mas, também, é madrasta e nos engole.

A deambular pelo cais nas horas quietas duma tarde outonal.
 
foto e texto de Benó

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Companheiros

 

 
 
Livros nas prateleiras, livros sobre a mesa de trabalho, livros sentados nas cadeiras.
Eles são a melhor companhia. Falam connosco, contam-nos histórias, calam-se quando desejamos silêncio, distraem-nos e fazem-nos rir se a tristeza se quer instalar. Não maçam, não são atrevidos, não pedem almoço nem jantar. Não são indiscretos e sabem guardar todos os segredos que gostamos de lhes contar. Não ficam tristes se passarmos um ou vários dias sem os acariciarmos, sem os levarmos connosco, sem dormirmos com eles à cabeceira.
Esperam sempre por nós e sabem abrir os braços quando as nossas mãos mesmo cansadas os afagam e folheiam para fazermos parte das aventuras que nos querem contar sejam elas épicas ou romanescas.

imagem da net
texto de Benó