quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Agosto/setembro








Ouvem-se gargalhadas, frases soltas, perguntas feitas que ficam sem resposta entre uma bica e um pastel de nata ou um galão e uma tosta mista, na esplanada do largo da vila, onde os diálogos acontecem duma mesa para outra e as palavras são dispersas pela brisa que gosta de aparecer naquelas horas matinais.
À noite, nas salas dos restaurantes onde por vezes faltam mesas, aparece um tocador que poderá ser de gaita, de acordeão, de guitarra ou até de saxofone que, com músicas alegres e festivaleiras entretém e anima o espaço onde o sussurro das conversas é acompanhado pelo tilintar das facas e garfos.
Amanhã, muda o executante, muda o instrumento. Vêm de longe, já percorreram outras terras, tocaram para outros ouvintes, musicaram outros jantares. Há sempre alguém generoso na oferta de alguns euros.

Agosto continua a ser o mês mais movimentado para quem vive e sobrevive do turismo nestes recantos algarvios.
Mas agora, setembro chegou e com ele vem também aquela calma outonal que convida a longos passeios no areal ao fim da tarde quando o sol já é morno e diz – até amanhã -mergulhando nas calmas águas verde azuladas do nosso mar. Mar que, sem pressa e preguiçosamente, nessas horas sem hora, na indefinição entre o dia e a noite, deixa rolos de espuma branca na praia quase deserta criando a ilusão dum bordado a enfeitar o saiote duma varina.


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Ferrugem




Objeto esquecido, isolado, abandonado mas sempre útil quando as chamas irrompem por perto. Foi talvez a falta de manutenção, o desleixo, o deixa andar que deu a esta boca de incêndio completamente enferrujada o aspeto de velho, dir-se-ia inoperável.

As peças enferrujadas partem facilmente, deixam de ser úteis, deitam-se fora, substituem-se por outras novas prontas a corresponderem às nossas necessidades imediatas e, rapidamente, esquecemos as outras que já não nos servem.  Não nos ocorre que se estragaram, possivelmente, pela nossa incúria, pela falta das limpezas que deveriam ter sido feitas atempadamente e não foram, pela falta duma boa utilização.

Será, talvez pelas mesmas razões, pela falta de atenção, de cuidados que os relacionamentos entre os humanos se deterioram, apresentam ferrugem, quebram, poem-se de lado?


sábado, 29 de agosto de 2015

Paixões e traições

 
No sossego do meu recanto, já com o sol a baixar,  pousado sobre a espreguiçadeira onde repousa uma fofa almofada, um livro espera-me. 
Morfeu também.
Não sei a qual me vou entregar primeiro.
Aconteceu hoje neste jardim d'abrolhos.
 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Brincadeiras no céu

 
 
 
 



 
Formavam uma unidade como se fossem vários corpos unidos num abraço infinito, indestrutível. Caminhavam vagarosamente saboreando as delícias de estarem juntas, puxadas pelos cavalos alados invisíveis ao fim da tarde.

Repentinamente, do que parecia uno, um bocado soltou-se e com o rubor próprio de quem sai dos braços dum amante fogoso, foge, corre e espera ser apanhado para, novamente num abraço já nocturno se ligarem e tornarem a fundir num corpo só.
Nuvens apaixonadas em alegres passeatas sobre este espelho líquido onde se olham e pavoneiam.

fotos e texto de Benó

domingo, 16 de agosto de 2015

Gaivotas em terra


São pássaros do mar, habituados aos ventos e suas correntes, às brancas espumas da maresia, marujos de docas e cais onde restos de peixes caídos de algum cabaz das traineiras lhes servem de refeição. Pousadas sobre as águas dos mares ora calmas ora onduladas, passeiam-se e embalam-se.

Juntam-se em grupo para conversar na encosta da arriba frente ao mar.
Ouvi dizer que são prenúncio de tempestade quando sobrevoam terra com o seu forte grasnar. Ou sinónimo de fome, penso eu.


foto e texto de Benó

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Verão


 
 
Chegam às revoadas, em bandos como as aves de arribação. Pousam em esplanadas, invadem restaurantes, falam alto, gritam com os mais pequenos que correm soltos das mãos adultas como potros indomados.

São os turistas de verão que chegam às terras do sul onde todos os dias o sol aquece, as noites são cálidas e a água do mar refresca os corpos que se desejam.

Andam à vontade pelas ruas olhando aqui e ali, distraidamente, pois sabem que o podem fazer nestas terras serenas de gente confiável e de sorriso fácil. Entram e saem nas lojas dessas ruas onde se lhe oferece toda a panóplia de artigos para levarem como recordação quando as férias terminarem.  Desde o íman para a porta do frigorifico à “tcherte” com dizeres ou imagens de futebolistas, das praias, dos monumentos e por aí fora, encontram-se nas lojas dos “suvenires”, dos “recuerdos”, uma junto à outra, muito iguais entre si, onde jovens estudantes arranjam emprego neste intervalo entre exames e aulas para praticar conversação dos idiomas estudados no último ano escolar. 

Correm mais euros entre os dedos dos comerciantes.

Os dias são mais coloridos, as noites mais musicais, o areal das praias mais dourado e os corpos vão-se tornando mais morenos, da cor das espigas já ceifadas.
Há mais alegria no ar.
 
foto e texto de Benó
 
 


sábado, 18 de julho de 2015

Coração inerte

                                                                                       foto de Vanda Rita Oliveira


Na vazante, quando o mar se encolhe e se retrai oferecendo-nos um vasto areal, ela ali está, a imponente caldeira, abrigo de lapas e mexilhões, burgaus e ouriços. 

Quando eu era mocinha loura e traquina, sempre à procura do desconhecido, corria pela praia na esperança de encontrar estrelas tremeluzentes que tivessem caído do alto, daquelas alturas tão infinitas que, no meu pensar infantofantasioso nem o maior dos gigantes lá chegaria. Porem, quando o mar recuava, nas grandes marés , a caldeira de ferro enferrujado, toda esburacada, enorme, era um atrativo para a minha curiosidade. Afoita, metia-me dentro daquele tamanho imenso, na procura de lapas e ouriços que comia crus, ali mesmo, e acabava por esquecer a procura das estrelas, das conchas nacaradas, dos pequenos búzios com que fazia pulseiras para os meus braços e pernas de menina.

Não sei a que senhor pertenceu mas sei que, desde sempre, me habituei a vê-la coberta de areia ou completamente a nu consoante o prazer do mar que a lambia, esse mar que é manso e de águas transparentes mas que, facilmente, pode agigantar-se, ficar branco de raiva e espumar. Ali está, há muitos, muitos anos, despojo duma guerra que não foi da minha vida mas que a deixou na praia da minha infância, de grãos dourados e finos por onde os meus pés descalços corriam e se enterravam, com a alegria própria da criança feliz que sempre fui.

Hoje, continua a ser um atrativo misterioso para a criançada que poderá não gostar do mesmo que eu mas, certamente, aprecia descobrir pequenos búzios e outros seres marinhos agarrados aquele ilhéu de ferro, coração inerte, esburacado, dum navio que cruzou mares, venceu tempestades e agora está coberto de acaramuje e para nada serve.

Quando o verão acontece e o areal é penteado e despenteado pelo vento norte, a caldeira emerge e as recordações afogam-me.