foto de Vanda Rita Oliveira
Na vazante, quando o mar se encolhe e se retrai oferecendo-nos
um vasto areal, ela ali está, a imponente caldeira, abrigo de lapas e mexilhões,
burgaus e ouriços.
Quando eu era mocinha loura e traquina, sempre à procura do
desconhecido, corria pela praia na esperança de encontrar estrelas tremeluzentes
que tivessem caído do alto, daquelas alturas tão infinitas que,
no meu pensar infantofantasioso nem o maior dos gigantes lá chegaria. Porem, quando
o mar recuava, nas grandes marés , a caldeira de ferro enferrujado, toda esburacada,
enorme, era um atrativo para a minha curiosidade. Afoita, metia-me dentro daquele tamanho
imenso, na procura de lapas e ouriços que comia crus, ali mesmo, e acabava por esquecer
a procura das estrelas, das conchas nacaradas, dos pequenos búzios com que fazia pulseiras para os meus braços e pernas de menina.
Não sei a que senhor pertenceu mas sei que, desde sempre, me
habituei a vê-la coberta de areia ou completamente a nu consoante o prazer do
mar que a lambia, esse mar que é manso e de águas transparentes mas que, facilmente, pode agigantar-se, ficar branco de raiva e espumar. Ali está, há muitos, muitos anos, despojo duma
guerra que não foi da minha vida mas que a deixou na praia da minha
infância, de grãos dourados e finos por onde os meus pés descalços corriam e se
enterravam, com a alegria própria da criança feliz que sempre fui.
Hoje, continua a ser um atrativo misterioso para a criançada
que poderá não gostar do mesmo que eu mas, certamente, aprecia descobrir
pequenos búzios e outros seres marinhos agarrados aquele ilhéu de ferro,
coração inerte, esburacado, dum navio que cruzou mares, venceu tempestades e agora está coberto de acaramuje e para nada serve.
Quando o verão acontece e o areal é penteado e despenteado
pelo vento norte, a caldeira emerge e as recordações afogam-me.