quinta-feira, 18 de junho de 2015

Ambições




Voa alto! Ambiciona!

Passa para lá das nuvens. Pesquisa o desconhecido, estrelas, galáxias, cometas. Talvez encontres a tua lua ou quererás tu chegar ao Sol?

Não és Ícaro, eu sei, as tuas asas não são feitas de cera mas as leves penas que cobrem o teu corpo ardem facilmente, por isso, é conveniente escolheres acertadamente a direcção dos teus voos, as metas que pretendes alcançar.

Há muitos sóis espalhados pelos céus azuis da tua existência que podes agarrar e, com eles, criar luz própria sem te queimares.

As asas que te ajudam a voar longe, por paraísos desconhecidos, são braços que abraçam o mundo.

Não te percas.

Voa, voa alto mas não esqueças que és um simples pássaro neste mundo cheio de aves de rapina.   
 
 
foto e texto de Benó                                                                    

 

 

 

 



domingo, 14 de junho de 2015

Danças





A saltitar nas pequenas patas rosadas, batem e erguem as asas como num pré-levantar voo mas, mais parecem pequenas bailarinas de branco “tou-tou” num “pas de deux” ou de “trois”, executando belos movimentos de leveza e agilidade.

Não é uma dança de cortejamento ou de agradecimento mas, sim, uma dança de guerra, sonora, para afastar as presumíveis candidatas à refeição servida sobre o verde da fresca relva.
 
foto e texto de Benó


terça-feira, 2 de junho de 2015

Crianças.




Os risos andam no ar. Gargalhadas fazem-se ouvir e as mãos agitam-se  em brincadeiras de lançar os papagaios, em esburacar o chão para fazer as covinhas para o jogo do berlinde, em lançar o ringue, em saltar à corda.

Todos os dias, corridas, saltos, pulos, esconde e apanha, na rua, lugar de peleja, de zangas e de medir forças. Todos os dias eram  teus.

Brinquedos, tinha-los feitos por ti e recebias um carrinho ou uma boneca em alturas especiais, como no dia do teu aniversário ou no dia de Natal e a alegria era muita e as gargalhadas faziam-se ouvir. Todos os dias eram teus.

A mãe, o pai, os avós, os tios, os primos beijavam-te, acarinhavam-te, brincavam juntos, cada um à sua maneira. Havia gargalhadas no ar. Todos os dias eram teus.

Hoje, só há um dia que é teu. Porquê, criança? Quando tu és criança todos os dias!
 
 
 
Vamos jogar ao faz-de-conta e permitir que, neste dia, os adultos soltem a criança que vive aprisionada dentro de si e possam correr livremente pelos verdes campos, gritar aos pássaros, fazer carreirinhas nas frescas ondas, jogar ao berlinde e ver desenhos animados na TV. Brincar com vocês, as crianças que ainda o são na realidade em  todos os dias  que são vossos. Deixemos os adultos serem crianças no chamado Dia da Criança.

imagens da net

terça-feira, 26 de maio de 2015

Borboletas



 
 
Borboletas de finas asas esvoaçam à volta da luz hipnotizadas como num encantamento.
Rumo indefinido, antenas sem norte nem direção.
Rodopiam como numa ciranda, soltas, leves.
Não param na busca inconstante onde pousar.
Não encontram folha, galho ou fruto que as receba.
Pelo éter se movem num batimento de fragilidade.
A luz enlouquece-as e cansadas acabam por sucumbir. Inertes, tombam sem vida.
Borboletas de frágeis asas descoloridas jazem no chão, num adormecimento letal. Serão alimento de aves de asas brancas que o mar enviou.
 
 
 
foto e texto de Benó
 
 
 
 
 

sábado, 23 de maio de 2015

Fome

 
 
 
 


Vieram de longe ou não pois o mar está tão perto. Não sei! Tanto faz!
Começaram por observar o terreno, pairando lá no alto ou planando.
Foram necessários alguns dias para observação do terreno, tal como os espiões disfarçados precisam estudar o seu campo de ação para depois agir, assim elas fizeram.

Uma ave, duas, não mais, vindas das alturas, passavam em voos rasantes sobre o relvado, sem pousar, asas abertas, bicos aduncos prontas a apanhar o que quer que estivesse colocado, propositadamente, para lhes chamar a atenção, numa tigela sobre o espaço onde as crianças jogam à bola.
Sobre o verde da esperança.
Chegavam ordenadas em pequenos bandos, na sua fina penugem branca ou não. Tanto faz! Executavam pequenos saltos e corridas como se fossem atletas de salto em comprimento e procuravam a melhor posição para atacar a comida.


 

Já familiarizadas com o ambiente, mas um pouco amedrontadas, observam as redondezas, pousam e, logo, começam as zangas, o bater de asas, o grasnar para estabelecer hierarquias no ataque ao alimento.
Macho ou fêmea, tanto faz!
As mais humildes afastam-se e esperam a sua vez de debicar o que ficou e são as mais ousadas que comem primeiro e os melhores bocados.
Grasnando alto e em bom som vencem as mais fortes, sempre. As outras ficarão com os restos da abastança.

As sobras são para os mais fracos.
 
fotos e texto de Benó
 
 
 

 

 

.

terça-feira, 19 de maio de 2015

A Tareca





A mesa iluminada pela luz parda do candeeiro de petróleo estava posta.
Parecia não faltar nada. Os copos, os talheres, a garrafa do vinho, a cestinha do pão. A sopa acabada de fazer estava servida nos pratos e o seu odor inundava a divisão onde se encontrava a família já sentada para a ultima refeição do dia.  Só a gatinha ficara na cozinha, a gozar o prazer quente das brasas do lar já quase extinto.

Todos comiam e só se ouvia o tilintar das colheres nos pratos quando a mãe reparou que faltava o jarro da água.
Pediu à filha mais nova para ir à cozinha buscá-lo mas a cachopa, de cabeça baixa, não se mexeu do seu lugar. A mãe estranhando tal atitude tornou a fazer o mesmo pedido.

As lágrimas encheram os olhos pequeninos da criança de cabelos pretos e entre soluços conseguiu dizer:
 -Tenho medo de ir à cozinha porque os olhos da Tareca brilham no escuro, parecem duas brasas.
Ouviram-se as risadas das irmãs mais velhas que deixaram a mocinha meia envergonhada.

O pai levantou-se e pegando na filha ao colo levou-a à cozinha para lhe mostrar que o que a assustava mais não era do que dois olhos de gata, inocente e meiga pronta a receber o carinho dum afago da sua mão rechonchuda e pequena.




um conto contado ao Bloco de Capa Azul

 


terça-feira, 12 de maio de 2015

Papoilas

 
Campos de papoilas rubras, elegantes, de sedosas pétalas  e finos caules penugentos que dançam e
se agitam com as brisas que sobre elas perpassam.
Já não são vermelhas, perderam a cor viva, a cor da alegria. Estão descoradas, tomaram o tom pálido do descontentamento. Esqueceram os rubros cravos, esqueceram o que é ser livre ao saberem que as prisões estão cheias de homens, mulheres e até crianças.
Lembram os escritos proibidos que tantos desejavam ler. Agora, sabem que existem infinitas prateleiras cheias de livros em grandes casas para os vender mas, não há gente para os comprar.
 De que serve saber ler se não se sabe interpretar?
Falta dinheiro para o pão, falta dinheiro para a cultura.
As papoilas vermelhas descoradas lembram as searas douradas onde nasciam e cresciam e agora veem campos sem espigas, gente sem trabalho, fábricas paradas sem farinha, mãos sem calos pois não há ferramentas para concretizar os sonhos dos homens.
As papoilas, símbolo da alegria, estão sem cor e já não dançam ao som do vento. Pensativas não sabem para que serve a liberdade.