terça-feira, 19 de maio de 2015

A Tareca





A mesa iluminada pela luz parda do candeeiro de petróleo estava posta.
Parecia não faltar nada. Os copos, os talheres, a garrafa do vinho, a cestinha do pão. A sopa acabada de fazer estava servida nos pratos e o seu odor inundava a divisão onde se encontrava a família já sentada para a ultima refeição do dia.  Só a gatinha ficara na cozinha, a gozar o prazer quente das brasas do lar já quase extinto.

Todos comiam e só se ouvia o tilintar das colheres nos pratos quando a mãe reparou que faltava o jarro da água.
Pediu à filha mais nova para ir à cozinha buscá-lo mas a cachopa, de cabeça baixa, não se mexeu do seu lugar. A mãe estranhando tal atitude tornou a fazer o mesmo pedido.

As lágrimas encheram os olhos pequeninos da criança de cabelos pretos e entre soluços conseguiu dizer:
 -Tenho medo de ir à cozinha porque os olhos da Tareca brilham no escuro, parecem duas brasas.
Ouviram-se as risadas das irmãs mais velhas que deixaram a mocinha meia envergonhada.

O pai levantou-se e pegando na filha ao colo levou-a à cozinha para lhe mostrar que o que a assustava mais não era do que dois olhos de gata, inocente e meiga pronta a receber o carinho dum afago da sua mão rechonchuda e pequena.




um conto contado ao Bloco de Capa Azul

 


terça-feira, 12 de maio de 2015

Papoilas

 
Campos de papoilas rubras, elegantes, de sedosas pétalas  e finos caules penugentos que dançam e
se agitam com as brisas que sobre elas perpassam.
Já não são vermelhas, perderam a cor viva, a cor da alegria. Estão descoradas, tomaram o tom pálido do descontentamento. Esqueceram os rubros cravos, esqueceram o que é ser livre ao saberem que as prisões estão cheias de homens, mulheres e até crianças.
Lembram os escritos proibidos que tantos desejavam ler. Agora, sabem que existem infinitas prateleiras cheias de livros em grandes casas para os vender mas, não há gente para os comprar.
 De que serve saber ler se não se sabe interpretar?
Falta dinheiro para o pão, falta dinheiro para a cultura.
As papoilas vermelhas descoradas lembram as searas douradas onde nasciam e cresciam e agora veem campos sem espigas, gente sem trabalho, fábricas paradas sem farinha, mãos sem calos pois não há ferramentas para concretizar os sonhos dos homens.
As papoilas, símbolo da alegria, estão sem cor e já não dançam ao som do vento. Pensativas não sabem para que serve a liberdade.

 

 

 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Reencontro




O mundo não para, sucedem-se os dias, os anos.
Há uniões, desuniões, zangas, guerras mas os jardins renovam-se a cada estação do ano com flores diferentes mas não deixando nunca de ser um jardim mais ou menos colorido, mais ou menos sombreado mas sendo sempre um jardim com caminhos  suaves orlados de rosas ou mais difíceis com urtigas que picam. 
Como a vida.
O ontem já foi.  O amanhã será sempre o amanhã.  Resta-nos o hoje, o agora para saborearmos o gosto de viver mas terá que ser neste preciso momento, nesta pequenina centelha de segundo porque o agora não tem a duração de nada. Tudo tem de ser feito imediatamente se quisermos saborear o prazer de estar vivo, o prazer de compartilhar a amizade, o amor, o gosto de dar.
O hoje é demais importante para falar no que ficou para trás.

São amigas de longa data que se reencontraram,  riram, choraram, lembraram alegrias, pois só elas merecem ser recordadas. As amigas de longa data, voltaram a ser jovens porque felizes continuam a ser.

 

                                                                                            di Cavalcanti
 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Parabéns




O Jardim d’abrolhos festeja este mês uns floridos 5 anos e foi com satisfação que verifiquei ter atingido os 100 seguidores.
Obrigada a todos que gostam de o visitar.
Inaugurei este espaço em Maio de 2010 e aos poucos, nem sempre com a regularidade que desejaria, foram postadas 347 mensagens que foram lidas em 58 215 visualizações, segundo estatísticas do Blogger.
Os visitantes vêm dos mais diversos pontos do globo, a saber, Portugal, Brasil, Canada, Alemanha, Reino Unido e até da China.

Tentarei que o Jardim esteja sempre viçoso, sem ervas daninhas, adubando-o e regando-o. Também terá o meu cuidado para renovar os seus canteiros com coloridas flores para que sejam dignas de merecer a  apreciação de quem gosta de vir apreciá-lo.
Retribuirei as vossas visitas com amizade.


 

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domingo, 26 de abril de 2015

Espuma no areal




Há momentos especiais em que a natureza nos proporciona belos instantâneos fotográficos.
Num dia de vendaval no inverno passado, o mar resolveu lavar as pedras do areal com a espuma duma barrela que só ele sabe fazer e eu estava lá.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Areal

                                                                                                         foto e texto de Benó
 
 
O areal é suave, macio e os pés que passam deixam marcas formando pequeninas dunas.
Quando o dia se despede e a brisa se torna vento, os finos grãos dourados esvoaçam colando-se aos corpos ainda húmidos dos últimos passeantes. É então que os relevos desaparecem para dar lugar a uma lisura fofa que a maré cobrirá de espuma borbulhante.

sábado, 18 de abril de 2015

Carinhos

 
Mãos que viajaram europa adentro sentiram outros tatos, mergulharam noutras águas, dedilharam outras músicas, ensaiaram outros gestos, acenaram despedidas. Mãos que se fecham para guardar as gargalhadas das crianças, os afetos que recebem, a felicidade que merecem, mas que se abrem para espalhar felicidade, amor, vontades traçadas num querer sem esmorecer, afagam, seguram e amparam.
Trouxeram-me lembranças que são carinhos.