quinta-feira, 19 de março de 2015

Simplesmente flores



 Os campos sentem-se abençoados pela água que nestes dias tem caído e tornado vigorosas as plantas que morriam à mingua dela. Como agradecimento, as flores silvestres abrem-se num sorriso e oferecem todo o encanto das suas cores aos passantes que, como eu, reparam nelas.




No jardim d'abrolhos, não há falta de água mas o frio tem engelhado os seus habitantes que num encolhimento sentido têm-se recusado a desabrochar.
No entanto, este lírio, o primeiro desta primavera, cansado de estar apertado dentro da terra, irrompeu e apresentou-se em toda a sua verticalidade azul.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A árvore

 
 
O cinzento outono me desfolhou. O frio inverno me lavou com as suas águas ora brandas ora tempestuosas.
Sinto-me nua e começo a sentir nos meus braços os beijos mornos da primavera a chegar, sem calor. Ergo-os numa súplica aos céus para que as águas regressem e encham os campos e as lagoas novamente de vida.
Espero as aves primaveris, quero ouvir o seu chilreio nos meus ramos que aos poucos se vão vestindo de verde, quero ver as acrobacias dos seus voos rasantes quando refrescam o bico nas águas que estão a meus pés e me servem de espelho.
A água está parda e eu ainda nua tremo de frio.
Espero o calor doce dos beijos da primavera.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Vermelho


                                                            foto e texto de Benó



Vermelho é vida, é calor, é paixão, é o verniz que colore as unhas em dias de festa e o baton das bocas ávidas de beijos .

Vermelho é o sangue de inocentes e culpados, virgens e prostitutas, de negros, brancos, amarelos, mesmo de gente que diz tê-lo azul.

Vermelho é a cor da passadeira do êxito mas também é a cor da proibição, da raiva . Vermelhas são as papoilas que salpicam as searas de trigo maduro nos campos desta terra que já foi mourisca.

Vermelhos são os cravos que crescem nos vasos das varandas das casas do seu bairro, tratados e regados com amor, pelas mulheres que outro entreter já não têm, senão cuidar dos craveiros e dos gatos que à noite se enroscam aos seus pés vermelhos de frio.

 

quarta-feira, 4 de março de 2015

Pedras

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



 
 
                                                                    fotos e texto de Benó
 
 
Juntaram-se num encontro mesmo ali, sobre o mar, para conversar e admirar em conjunto as cores do entardecer e por ali ficaram.  Assim se encontram há muitos e muitos anos, tantos que ninguém se lembra desde quando.
O vaivem das marés lava-as, beija-lhes os pés, enche-as de salinidade.
O sol aquece-as e os lagartos fazem delas o seu mirante enquanto se bronzeiam e admiram a profundidade do verde mar.
Em noites de lua cheia, as duas amigas brilham como prata e, possivelmente, recebem a visita de sereias e de mouras encantadas que aparecem para uma pequena conversa.
As pedras amigas também sentem o desgaste do tempo, do vento, da chuva e a base do seu apoio, ano após ano, vai-se tornando mais frágil e inseguro.
Esperam que, num dia de vendaval daqueles em que as ondas parecem gigantes a querer tudo engolir, uma vaga forte, alta e imponente as arranque do sítio onde se encontram e as coloque lá em baixo no fundo da falésia onde permanecerão cobertas pelo mar para aí se tornarem abrigo de lapas e mexilhões.
Sempre juntas, eternamente, como um amor divino.
 
 
 
 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Brincadeiras ao luar

                                                                                                   foto e texto de Benó

A noite tinha acabado de chegar e não viera só, tinha-se feito acompanhar da lua enorme, redonda, brilhante que lançava sombras esguias na rua pouco movimentada.

No adro da igreja brincava-se à vontade, sem receio de raptos ou desaparecimentos e a criançada olhava para aquele grande circulo prateado ainda virgem de pegadas humanas e com as mãozinhas abertas de palmas viradas para cima, dizia:
- Madrinha lua, madrinha lua dá-me um bocadinho de pão com uma sardinha crua!

Inconscientes do significado do pedido mas cientes de que da lua não vinha nada a não ser a linda luz prateada que lhes permitia as especiais brincadeiras noturnas, repetiam a frase rimada e iniciavam as brincadeiras bem distintas entre rapazes e raparigas. Elas faziam rodas e cantavam. Eles corriam e escondiam-se enquanto um outro ficava de olhos fechados a contar – um, dois, três, por aí fora, até 20.
Havia uma verdadeira movimentação atrás das árvores do adro e nas esquinas da igreja.

Não sentiam sono nem cansaço. Só a voz das mães cujas conversas tinham chegado ao fim punha termo em tanta correria. Era a hora de recolher e dormir até que o galo cantasse com o nascer do sol e lembrasse que a escola estava à espera.
O adro ficava vazio e a velha lua retirava-se por detrás de alguma nuvem passageira.

 


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Marioneta









Nos calmos silêncios em que me mexo, persigo a tua sombra, abraço-a.
Volátil como um fumo opiáceo, pairo suspensa entre o sonho e a realidade. Igual a uma marioneta comandada por cordéis, ergo os braços, tombo a cabeça vencida por recordações, escuto os risos e as fanfarras dos palhaços .

À noite, o vento, meu companheiro nos passeios ao luar, acompanha-me, envolve-me, traz-me o marulhar das ondas incertas e o odor perfumado da maresia.
Tento escrever mas as letras que imprimo são como areia nas dunas da praia, inconstantes, sombras fugidias entre os dedos.

É urgente parar o vento.
Soltar os cordéis.
Viver.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Nuvens

 
 


 

As nuvens são farripas, farrapos de fios duma qualquer tecedeira, flocos de algodão doce duma qualquer doceira, pastas de lã cardada por uma qualquer cardadeira, elas são imagens criadas por uma qualquer fantasia a habitar no olhar dum qualquer sonhador.

São diáfanas, leves, transparentes ou grossas, prenhas de água na sua cor branca, cinzenta ou azul à espera do momento oportuno para se abrirem e despejarem toda a carga que transportam num refrescar de terras e transbordar de rios e mares.

As nuvens têm os seus momentos mágicos para brincar quando o dia se prepara para partir e a noite ainda não se vestiu com os seus véus noturnos.  Então, elas tomam o pincel do pintor carregam-no de tintas nos mais diversos tons do vermelho ao laranja e em pinceladas largas criam monstros cor de fogo que pairam por algum tempo sobre o grande espelho líquido que as reflete.
 
fotos e texto de Benó