sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Marioneta









Nos calmos silêncios em que me mexo, persigo a tua sombra, abraço-a.
Volátil como um fumo opiáceo, pairo suspensa entre o sonho e a realidade. Igual a uma marioneta comandada por cordéis, ergo os braços, tombo a cabeça vencida por recordações, escuto os risos e as fanfarras dos palhaços .

À noite, o vento, meu companheiro nos passeios ao luar, acompanha-me, envolve-me, traz-me o marulhar das ondas incertas e o odor perfumado da maresia.
Tento escrever mas as letras que imprimo são como areia nas dunas da praia, inconstantes, sombras fugidias entre os dedos.

É urgente parar o vento.
Soltar os cordéis.
Viver.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Nuvens

 
 


 

As nuvens são farripas, farrapos de fios duma qualquer tecedeira, flocos de algodão doce duma qualquer doceira, pastas de lã cardada por uma qualquer cardadeira, elas são imagens criadas por uma qualquer fantasia a habitar no olhar dum qualquer sonhador.

São diáfanas, leves, transparentes ou grossas, prenhas de água na sua cor branca, cinzenta ou azul à espera do momento oportuno para se abrirem e despejarem toda a carga que transportam num refrescar de terras e transbordar de rios e mares.

As nuvens têm os seus momentos mágicos para brincar quando o dia se prepara para partir e a noite ainda não se vestiu com os seus véus noturnos.  Então, elas tomam o pincel do pintor carregam-no de tintas nos mais diversos tons do vermelho ao laranja e em pinceladas largas criam monstros cor de fogo que pairam por algum tempo sobre o grande espelho líquido que as reflete.
 
fotos e texto de Benó

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Chorões-maritimos








                             

 

Na árida arriba os invasores chorões-das-praias crescem livremente e cobrem as areias douradas com os pequenos braços no tom verde escuro.
Aqui e ali, florescem as suas flores suaves e efémeras em tom rosa de pétalas leves.
 Mais acima, um pintor incógnito, imortaliza na tela a paisagem impar duma praia aqui perto do jardim. 
 
                                                                                fotos e texto de Benó

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Flores silvestres




 

 
Para se defenderem não precisam de canhões ou de outro qualquer tipo de arma de fogo das que outrora equiparam a fortificação militar, agora em ruínas, onde nasceram e cresceram.

Amparadas pelas pedras seculares daquele forte, enfrentam e defendem-se dos ventos que por ali cirandam em rodopios ou batidas agrestes. Resistem aos sóis escaldantes vindos da África, tão perto e os ares salitrosos que sobem morro acima em dias de tempestade não lhe causam qualquer dano.

Sentem-se privilegiadas por ali terem nascido, alimentam-se do sol e refrescam-se com os poucos pingos de água que as nuvens nos instantes que por ali passam nas suas viagens de destino incerto lhes oferecem entre sorrisos. Sobrevivem ao isolamento, são eremitas em terra de ninguém, outrora dedicada a S.Luis.
São as flores silvestres de nascimento espontâneo nas ruínas do Forte de S.Luis de Almádena com vista para o mar

 

sábado, 10 de janeiro de 2015

Cinzento colorido


 
A vila mergulha num sossego parado, neste mês frio de Janeiro. É a altura ideal para revisitar locais  que, por estarem perto, quase nos esquecemos da sua existência e da beleza que nos oferecem.
Foi o que aconteceu num dia cinzento, sem sol, em que os olhos pediam vistas diferentes para além das árvores despidas do jardim.


A praia do Zavial onde alguns surfers se entretinham nas pequenas ondas foi a nossa primeira paragem.

 
Foi uma pena  o restaurante estar fechado  mas é o que acontece à maioria destes estabelecimentos de beira-mar.
 
 
A praia da Salema 
 
Com um bote que tem o nome duma localidade angolana
 
 
 
Terminámos na praia da Boca do Rio onde algumas autocaravanas permanecem por tempo infinito. Sossego e beleza natural, mar e terra, numa simbiose perfeita encontra-se ali em qualquer altura do ano .
 
 

                                                          fotos e texto de Benó
 
 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Gaivotas na areia

 
Num dia cinzento, com um céu sombreado por nuvens grossas, escuras a prometer chuva, as gaivotas descansam na areia molhada da praia da Salema e conversam entre si, talvez sobre a falta de peixe que as faz passar fome.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Frio







Um denso manto de nuvens cinzentas cobre a cidade e o frio, com uma certa brejeirice, abraça homens e mulheres cujos corpos ainda frescos não se prepararam para o receber e sem qualquer resguardo passam apressadamente pela rua no desejo de chegar a casa.
O vento tornou-se bailarino com movimentos incontrolados na execução de danças violentas e agrestes. Toma para parceiras as folhas que arranca ao arvoredo que bordeja a alameda e quer sejam grandes ou pequenas elas volteiam no ar, arrastam-se pelo chão, escondem-se debaixo dos carros para reaparecerem sobre outros mais à frente.

As árvores, num erguer e baixar dos seus braços semidespidos, imploram que o vento se acalme e, quando as nuvens grossas e pesadas se abrem num alagamento sobre a terra sequiosa, o vento abranda e fica só o seu assobio ao passar mais calmo, pelas esquinas.
Há o latir dos cães amedrontados, o miar dos gatos no chamamento das fêmeas e nem mochos nem corujas se fazem ouvir nesta noite fria.

Só o vento geme e o céu chora.
Por momentos, o fogo duma lareira ajuda a esquecer a agressividade dos elementos que reinam para lá das portas, para lá das paredes.

 
texto e foto de Benó