Ansiosa,
chega à janela que não abre e, por entre as cortinas de fina gaze transparente,
olha a calma baía de águas azuis esmeralda, onde o céu se vê e revê tal como
Narciso no lago.
De pé,
vagarosamente, com as mãos pequenas, põe as vidraças a descoberto e sorrindo alonga
o olhar até onde os veleiros de velas recolhidas se encontram fundeados.
Ansiosa
espera, pois sabe que, dentro de minutos, alguém virá a terra, possivelmente algum
marinheiro para se abastecer de frescos ou simplesmente matar saudades de pisar
terra firme. Ansiosa interroga-se: -Como será o comandante de cada iate? Novo,
velho? Quantas pessoas viajarão ali? Qual o próximo porto a visitar? Estas e
muitas outras são perguntas que ficarão sem resposta pois, Ansiosa não sai da
sua janela para ir perguntar, para ir saber, conviver com as gentes que chegam
nos veleiros e movimentam as sossegadas águas da baía, enchem os bares, fazem
compras, conversam alto nas esplanadas que tomam de assalto e sabem sorrir ao
sol quente que os bronzeia. E põe-se a idealizar.
Ela sonha,
devaneia fantasias com príncipes audazes e corajosos prontos a raptá-la do seu
castelo onde não há relógios, nem agendas ou calendários, onde a vida parou e
ela própria se enclausurou, se ermou, num vazio sem horizontes.
Ansiosa vive
só com a sua ansiedade.
foto e texto de Benó