domingo, 8 de dezembro de 2013

Sou quem sou




Entre piteiras e catos, neste jardim d’abrolhos, sou quem sou.
Mulher, mãe, avó.
O aconchego, o carinho, o amor. Pele morena enrugada, cabeça nevada. Mãos largas nos carinhos oferecidos, braços pequenos para tantos abraços recebidos.
Sou o oceano revolto quando chega o vento do desespero.
Sou a frescura do oásis em dias de revolução.
Sou a inocência infantil no jardim das crianças.
Intransigente no querer, no estar. Exigente no saber.
Ficcionária, onírica, ave solta. Livre no escrever.

Procuro a verdade da vida, no ler. As letras são mundos desconhecidos. Viagens a descobrir.
Seguro a vida que vai aos poucos caminhando pela estrada que construí. Seguro-a, firmemente, enquanto rodeada de outras vidas que, juntas, formam um todo: a minha própria vida, a minha existência.
Não me pertenço.
Não estou só.
Sou quem sou.

Mulher, mãe, avó.
 
texto e foto de Benó

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Outono


 
 
 
 
 
 
 
Cerram-se as cortinas nas janelas escurecidas pela tarde que termina.
Os candeeiros, na rua, abrem os olhos até aí adormecidos, numa languidez soturna, vagarosa, como se tivessem medo da escuridão que se aproxima. O arvoredo calou as conversas com o vento e até a rosa vermelha parou de alisar as pétalas.

Os filhos aninham-se no colo dos pais enquanto as mães, com a boca cheia de beijos, cozinham a sopa do jantar.
Os gatos de cor parda esperam a hora da saída para os telhados onde as chaminés libertam o fumo retido nas brasas das lareiras.


É outono.


texto e fotos de Benó
 
 

 

 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Duas pedras

 



O vento, a chuva, a seca, as intempéries resultando numa erosão cuidada e meticulosa, talvez até, artística deram a estas pedras um perfil quase humano. Elas são espectadoras atentas ao que se passa no areal. Sabem quantos bagos de areia são necessários para formar uma duna, compreendem as conversas tidas entre as algas e os limos, ouvem as discussões dos caranguejos com as estrelas-do-mar, conhecem os ventos que sopram dos vizinhos desertos africanos ou aqueles outros, gelados, vindos do norte, onde moram as renas e as focas, também são maltratadas pelas fortes lufadas que chegam do sul, normalmente, carregadas de nuvens pesadas e negras. Entre elas, não perdem uma deliciosa cavaqueira sobre o Bóreas e o Nótus.
 
 
 
 
O sol, indiferente à beleza da onda que enrola e desenrola em brincadeira com as conchas e os mexilhões, segue a sua viagem diária perdendo-se para lá das águas profundas do oceano.
 
 
 
 
As pedras continuarão presas ao mesmo lugar, de onde podem dizer adeus aos marinheiros que passam ao largo rumando a aventuras que elas nunca poderão viver; sempre no mesmo lugar, de onde assistem a grandes tempestades mas também a belas e calmas bonanças; de onde podem extasiar-se ante os coloridos ocasos nas profundezas do infinito oceano; sempre no mesmo lugar, até que o gastar dos tempos as faça tombar, sem dó nem piedade, no fundo da falésia, nas águas que agora lhes beijam os pés, elas ali estão,
 
num local, aqui, perto do Jardim.
foto e texto de Benó

domingo, 24 de novembro de 2013

Por trás das gelosias

 
 
                                                                                              imagem da net


Por detrás das gelosias há segredos não contados. Vidas secretas, discretas.

Por detrás das gelosias espreita-se a rua, as vizinhas que param e conversam numa perda de tempo sem fim, os beijos atrevidos dos namorados, o cão que ladra à bicicleta que passa e o gato que afia as unhas no tronco da árvore.

Por detrás das gelosias suspira-se e aguarda-se a chegada do carteiro. Sonha-se com a carta há tanto desejada, há tantos dias para chegar.

Vê-se tudo que se passa lá fora, indaga-se interiormente, cogita-se mas não se abre as cortinas por detrás das gelosias.
 
texto de Benó
                                                                                  

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Rua molhada

 
                                                             foto e texto de Benó
 
A rosa vermelha espreita a rua molhada onde as luzes dos candeeiros já se refletem no acabar de um dia chuvoso deste outono ameno, aqui no Jardim d'abrolhos.
 


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Há moiro na costa





                                                                                                foto e texto de Benó

 

 
Ainda era uma adolescente, morena de grandes olhos pretos, amendoados, orlados de fartas pestanas. Olhos que sempre sorriam para todos e para a vida que vagarosamente decorria.

Numa alegria constante, espalhava risos e gargalhadas por entre familiares e por todos os que com ela conviviam. Era o braço direito de sua mãe, uma preciosa ajuda para tratar e cuidar dos mais novos e dos muito mais velhos que ainda faziam parte dos viventes naquela casa sempre em constante movimento.

De repente, o seu estar modificou-se.

Andava numa distração permanente. A avó queixava-se dos seus silêncios e da falta de companhia para jogar ao dominó, o seu jogo preferido ou para conversar; a mãe, das suas demoras quando a mandava à rua fazer qualquer recado e os mais pequenos choravam pela falta das brincadeiras habituais.

Dir-se-ia que a casa estava a tornar-se pequena e a adolescente necessitava de sair mais vezes para conversar com as amigas, de espaço, de liberdade ou então de estar só, isolada, longe de tudo e todos, a ouvir o bater descompassado do seu coração.

Com alguma frequência, podíamos vê-la debaixo das árvores do jardim, deitada na relva, fitando o céu com aqueles seus olhos grandes, absorta em pensamentos que eram só seus.

Até o pai começou a notar que a sua menina estava diferente e, como pessoa habituada às mudanças dos humores juvenis e femininos, comentou com a mãe, igualmente conhecedora dessas coisas e dos jovens corações apaixonados:

-“Há moiro na costa"

 

sábado, 9 de novembro de 2013

Perdão

 
 
 







Esquece.

Vem até mim

Escuta o rugir das marés

nos silêncios mudos

dos nossos sentires apaixonados.

Abraça-me.

 

Esqueci.

As palavras que não foram ditas

Não ouvi.

Não escutei as palavras que não disseste.

As minhas mãos estão vazias.

Nada guardei.

Nos olhos, as lágrimas que não chorei.

Esquece.
Esqueci.



foto e texto de Benó