quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Rua molhada

 
                                                             foto e texto de Benó
 
A rosa vermelha espreita a rua molhada onde as luzes dos candeeiros já se refletem no acabar de um dia chuvoso deste outono ameno, aqui no Jardim d'abrolhos.
 


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Há moiro na costa





                                                                                                foto e texto de Benó

 

 
Ainda era uma adolescente, morena de grandes olhos pretos, amendoados, orlados de fartas pestanas. Olhos que sempre sorriam para todos e para a vida que vagarosamente decorria.

Numa alegria constante, espalhava risos e gargalhadas por entre familiares e por todos os que com ela conviviam. Era o braço direito de sua mãe, uma preciosa ajuda para tratar e cuidar dos mais novos e dos muito mais velhos que ainda faziam parte dos viventes naquela casa sempre em constante movimento.

De repente, o seu estar modificou-se.

Andava numa distração permanente. A avó queixava-se dos seus silêncios e da falta de companhia para jogar ao dominó, o seu jogo preferido ou para conversar; a mãe, das suas demoras quando a mandava à rua fazer qualquer recado e os mais pequenos choravam pela falta das brincadeiras habituais.

Dir-se-ia que a casa estava a tornar-se pequena e a adolescente necessitava de sair mais vezes para conversar com as amigas, de espaço, de liberdade ou então de estar só, isolada, longe de tudo e todos, a ouvir o bater descompassado do seu coração.

Com alguma frequência, podíamos vê-la debaixo das árvores do jardim, deitada na relva, fitando o céu com aqueles seus olhos grandes, absorta em pensamentos que eram só seus.

Até o pai começou a notar que a sua menina estava diferente e, como pessoa habituada às mudanças dos humores juvenis e femininos, comentou com a mãe, igualmente conhecedora dessas coisas e dos jovens corações apaixonados:

-“Há moiro na costa"

 

sábado, 9 de novembro de 2013

Perdão

 
 
 







Esquece.

Vem até mim

Escuta o rugir das marés

nos silêncios mudos

dos nossos sentires apaixonados.

Abraça-me.

 

Esqueci.

As palavras que não foram ditas

Não ouvi.

Não escutei as palavras que não disseste.

As minhas mãos estão vazias.

Nada guardei.

Nos olhos, as lágrimas que não chorei.

Esquece.
Esqueci.



foto e texto de Benó

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Gaivota

 
 
 
 



Manhã cedo, com o sol ainda adormecido e a bruma matinal a pairar sobre o casario numa envolvência fria e húmida, a senhora gaivota, pousada no muro que circunda todo o espaço da fortaleza da Sagres, é a primeira observadora atenta às ondas na praia do surf situada lá em baixo, aninhada entre as altas falésias que lhe conferem proteção ao mesmo tempo que oferecem a beleza natural dos areais da costa vicentina.
 
 
foto e texto de Benó
 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Ocaso

 
 
 



Aquela bola de fogo que nos aquece e nos prende nos seus fogosos braços, que é sinónimo de vida e fecundidade, esconde-se nas águas do oceano num mergulho suave, sem splash, para ir dar luz e vida a outros seres outras gentes, desde que o mundo é mundo num ritual diário, desde sempre. A bola de fogo incendeia céu e mar, pinta labaredas nas cores mais quentes da paleta divina onde, há poucos momentos, só o azul era cor e, dá lugar a um espetáculo inigualável presenciado por multidões de diversas origens que ficam estarrecidas ante a beleza daquele momento em que o dia já não o é, nem a noite ainda é.

Para culminar, as aves calam-se, o vento abranda o seu queixume e as palmas irrompem num vibrante aplauso à despedida do sol, ali, no fim do mundo. Erguem-se taças borbulhando de líquido que se bebe entre risos e abraços.

E os espectadores mais atentos e místicos ouvirão, certamente, o burburinho provocado pelos deuses que, naquela hora, se reúnem nas salas cavernosas das profundezas do oceano.

Diariamente, no Cabo de S.Vicente.
 
 

 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Primaveras


Podes dizer-me que já não há mais primaveras, que as flores murcham sem desabrocharem, que os rios gelam antes de chegar ao mar ou que as árvores morrem sem oferecerem abrigo às aves nos seus ninhos.
Ouvir-te-ei carinhosamente enquanto me olhas como só tu o sabes fazer quando mentes. Como podes dizer que já não há mais primaveras?

Sim, eu sei, a neve criou morada na minha cabeça mas o meu coração bate ao sabor das marés ora manso, calmo e sereno, ora agitado, revolto como a tempestade.
Sinto a primavera em cada gorjeio dos pássaros que me habitam. Os meus dedos entrelaçam os raios de sol num novelo de imensos matizes; da terra quente germinam as sementes guardadas no seu ventre; os dias sucedem-se às noites estreladas, enluaradas ou negras, densas, misteriosas.

Tu sabes que há flores eclodindo da neve e, aqui, no Jardim, será sempre primavera.


 
foto e texto de Benó

 

domingo, 27 de outubro de 2013

Amigos



Esta semana no blogue PPP houve "Jornal de Parede". Cada colaborador(a) deveria enviar uma noticia, um pensamento, uma imagem em foto ou em texto ou uma coisa completando a outra, que achasse relevante para informar os outros.
O Paxá e o King, dois amigos, dois companheiros, fizeram parte do Jardim d'abrolhos durante muitos anos. Pelas suas brincadeiras, pelo carinho recíproco, pelas lembranças que ainda perduram, quis pô-los em notícia e, assim, homenageá-los.