segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Primaveras


Podes dizer-me que já não há mais primaveras, que as flores murcham sem desabrocharem, que os rios gelam antes de chegar ao mar ou que as árvores morrem sem oferecerem abrigo às aves nos seus ninhos.
Ouvir-te-ei carinhosamente enquanto me olhas como só tu o sabes fazer quando mentes. Como podes dizer que já não há mais primaveras?

Sim, eu sei, a neve criou morada na minha cabeça mas o meu coração bate ao sabor das marés ora manso, calmo e sereno, ora agitado, revolto como a tempestade.
Sinto a primavera em cada gorjeio dos pássaros que me habitam. Os meus dedos entrelaçam os raios de sol num novelo de imensos matizes; da terra quente germinam as sementes guardadas no seu ventre; os dias sucedem-se às noites estreladas, enluaradas ou negras, densas, misteriosas.

Tu sabes que há flores eclodindo da neve e, aqui, no Jardim, será sempre primavera.


 
foto e texto de Benó

 

domingo, 27 de outubro de 2013

Amigos



Esta semana no blogue PPP houve "Jornal de Parede". Cada colaborador(a) deveria enviar uma noticia, um pensamento, uma imagem em foto ou em texto ou uma coisa completando a outra, que achasse relevante para informar os outros.
O Paxá e o King, dois amigos, dois companheiros, fizeram parte do Jardim d'abrolhos durante muitos anos. Pelas suas brincadeiras, pelo carinho recíproco, pelas lembranças que ainda perduram, quis pô-los em notícia e, assim, homenageá-los.

sábado, 26 de outubro de 2013

O risco riscado

 
 

 
 
O risco riscado no alto,
lá longe, tão longe que nem se vê o riscador,
parece uma linha fininha de seda ou algodão
esticada pela habilidosa mão de costureira ou bordadeira
usando na agulha a bordar ou a costurar um vestido,
um bordado bem desenhado e esticado no seu bastidor.
O risco riscado lá no alto é um pássaro que transporta
no seu ventre alargado
gentes de um para outro lado.

foto e texto de Benó

 

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Temperos



Na parede branca sem qualquer ornamento, ali, mesmo junto à porta da cozinha, tenho os coentros, os piripiris. Aproveitei esta desusada sapateira que se encontrava atirada para os monos da arrecadação e organizei assim, todos em um. Ali, mesmo à mão de semear, tenho os temperos e dei colorido a um espaço frio.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A palmeira agonizante



Pés enterrados, seguros, firmes. Cabeça ereta de longos cabelos açoitados pelas ventanias vindas do gélido norte ou do quente deserto africano. Tudo ela suportou. O seu grosso tronco, nas cavidades próprias da vida longa que já suporta, foi, e ainda é, pouso de sementes trazidas pelos elementos alados que ali procuram descanso e, quiçá, alimento. Essas sementes, graças às boas condições térmicas encontradas, germinam rapidamente e uma flora, em diversos tons de verde, ainda adorna o corpo da árvore que já conta com um quarto de século.

Chegou ao fim a sua vida ferida pelo maldito escaravelho trazido pelos ventos quentes da vizinha África. Aos poucos tem perdido o seu vigor, o seu porte altivo esmoreceu e agora agoniza numa morte lenta. Pobre palmeira, símbolo de resistência, sinal de frescura em oásis perdidos no meio do areal, companheira de sombra em momentos de leitura, dentro em pouco nada mais será do que um cepo que perdurará em sua lembrança.

O jardim d’abrolhos retoma a sua actividade com esta pequena homenagem a uma das árvores que tem acompanhado as brincadeiras dos meus netos. Junto da araucária, a lhe prestarem guarda, estiveram duas palmeiras. Agora, só uma balouça as suas longas folhas nas brisas da tarde.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Calor


Gretas, rugas, socalcos a desenharem figuras geometricamente diabólicas na pele da terra abrasada pelas labaredas dardejantes do sol.

A crosta terrestre retrai-se, expande-se, cresta, morre de sede e anseia pelas frescas águas do outono. Secam os ribeiros, definham as plantas e, dos trilhos percorridos pelos caminhantes curiosos em mergulhar na bela flora da costa vicentina, solta-se e anda no ar uma poeira vermelha queimada pelo calor que nos suja e se cola à pele.

É o verão que nos oferece a beleza tórrida destes dias sem vento tão habitual aqui, no cabo.

foto e texto de Benó

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Silêncio




Porquê o silêncio me perturba?


As asas das borboletas que voejam pelo jardim soam como velas de moinhos gemendo nos seus rodízios em dias de ventania.

Neste silêncio que me cerca, o rastejar dos vermes da terra ecoa como as marés espraiando-se pela areia e a folha caindo da árvore chega ao meu sentir como uma onda batendo na falésia em dia de maresia.

O silêncio envolve-me, perturba-me, causa-me medo. Não raciocino, não penso, estou inerte.

Hoje, sou prisioneira do silêncio.

    foto e texto de Benó