terça-feira, 20 de agosto de 2013

Calor


Gretas, rugas, socalcos a desenharem figuras geometricamente diabólicas na pele da terra abrasada pelas labaredas dardejantes do sol.

A crosta terrestre retrai-se, expande-se, cresta, morre de sede e anseia pelas frescas águas do outono. Secam os ribeiros, definham as plantas e, dos trilhos percorridos pelos caminhantes curiosos em mergulhar na bela flora da costa vicentina, solta-se e anda no ar uma poeira vermelha queimada pelo calor que nos suja e se cola à pele.

É o verão que nos oferece a beleza tórrida destes dias sem vento tão habitual aqui, no cabo.

foto e texto de Benó

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Silêncio




Porquê o silêncio me perturba?


As asas das borboletas que voejam pelo jardim soam como velas de moinhos gemendo nos seus rodízios em dias de ventania.

Neste silêncio que me cerca, o rastejar dos vermes da terra ecoa como as marés espraiando-se pela areia e a folha caindo da árvore chega ao meu sentir como uma onda batendo na falésia em dia de maresia.

O silêncio envolve-me, perturba-me, causa-me medo. Não raciocino, não penso, estou inerte.

Hoje, sou prisioneira do silêncio.

    foto e texto de Benó

terça-feira, 18 de junho de 2013

Brincadeiras no escuro

                                                                                                 foto e texto de Benó
 
 
Era apenas mais uma noite invernosa. A chuva lá fora caía impiedosamente. O vento soprava empurrando à sua frente as folhas jovens que fragilmente se agarravam aos braços da mãe árvore. Ninguém passava na rua e as janelas eram olhos entreabertos deixando passar tiras de luz das casas ainda acordadas.
Como habitualmente em noites de invernia, a luz retirou-se não se sabe para onde, talvez com frio e o apagão foi geral.

A lareira chispava e iluminava debilmente a sala onde nos encontrávamos. Com o isqueiro que está sempre à mão, acendemos a vela e brindámos à claridade que pelas paredes desenhava figuras abstratas  executantes duma dança de luz e sombra.
Foi apenas mais um apagão numa noite invernosa em que a escuridão nos convidou à brincadeira habitual de fazer bonecos chineses com as mãos.

sábado, 25 de maio de 2013

Nevoeiro

                                                                                            foto e texto de Benó
 
 
O nevoeiro espalhava-se, víamo-lo a estender preguiçosamente os seus braços para rapidamente engolir as charnecas, devorar estevas, rosmaninhos, rosas albardeiras, tojos, jóinas. Fauna e flora tudo desaparecia por dentro do abraço frio e húmido daquele visitante pesado e indesejado. As palmeiras do jardim da avenida sentiam-se apertadas naquela densidade pegajosa e pelas suas longas folhas inertes escorriam lágrimas penosas que só o vento as faria secar.

O palmeiral ansiava pela chegada do ventania fria e forte à qual já se habituara e que, rapidamente, poderia dissipar aquelas gotículas de água que tudo molhava e tornava cegos os olhos que não viam “um palmo à frente do nariz”.

domingo, 19 de maio de 2013

Flores da rua


 
Cada vez há mais flores nas bermas dos caminhos, na beira das estradas por onde passam camiões, automóveis com cavalheiros que param para as colher.
Poluição social.
Flores desenraizadas, sem húmus para viver. Entre as pedras procuram a força necessária para o seu desabrochar. Terão uma existência curta e serão pisadas e serão cuspidas, maltratadas, arrancadas ao seu meio ambiente.
Serão flores murchas sem jardim.


foto e texto de Benó

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Escadas da vida


 
Escadas que se sobem.
Escadas que se descem.
Degrau a degrau, sem canseira nem cansaço, vais subindo a escada da vida, passo a passo.
Nalguns patamares na subida, paras e às vezes desces.
Prossegues, a subir ou a corrigir o teu caminhar para mais rápido ou mais devagar.
Quando a corda do relógio da vida se partir, descansarás então.
Os teus sonhos serão asas e voarás.

Haverá mais uma estrela no céu.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Livros


                                                                                             imagem da net
 
 
Livros amigos que me contam baixinho todos os seus segredos. Com eles derrubo gigantes, enfrento tempestades, choro e rio. Medito e sonho, avanço no futuro e volto ao passado, tudo isto estes amigos me oferecem sem pedir nada em troca. Não se queixam se deles me esqueço abertos ou fechados sobre qualquer mesa ou cadeira, não reclamam se, momentaneamente, os troco por dois dedos de conversa com as amigas.

Por vezes, fico pelo meio do assunto descrito, não consigo ouvir até ao fim as histórias que me estão a contar. Interrompo um, começo outro ou tenho dois e três no colo dedicando-lhes a mesma atenção, ouvindo-os alternadamente e com o mesmo interesse. Não são ciumentos nem um quer ser mais que o outro.

Os livros preenchem os meus momentos de solidão. Com eles não há espaços vazios dentro de mim. As suas letras são palavras que compõem o meu viver, o meu estar neste Jardim d'abrolhos