Na vivência diária, bebe-se a vida em golfadas contínuas numa mistura agridoce, de alegria e dor, sem tempo para degustar a beleza de cada instante nas coisas mais simples que nos cercam.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
No Cabo de S.Vicente
Chega gente de todas as idades, de todos os sexos, uns mais vestidos e já prevenidos para o vento no cabo, outros mais despidos que depois se embrulham como rebuçados nas suas toalhas de praia ou nos casacos de malha grossa que, apressadamente, vão comprar aos tendeiros que por ali abundam com as suas bancas bem decoradas com os mais diversos abafos desde capas, cachecóis, camisolas, luvas, meias e tudo o que seja para proteger do vento gélido que, normalmente, se passeia agressivamente por aquelas paragens.
Vêm admirar o espetáculo da natureza.
Ciumento, o farol vê, despeitado, as gentes assistirem ao mergulho do sol no oceano de águas frias, ao recolher da sua luz envolta nas transparências das nuvens.
Findo o espetáculo há a retirada alegre de quem encheu os olhos e a alma ante a beleza natural dum ocaso.
Então o farol, imediatamente, se acende e todos os seus cristais brilham nuns feixes de luz intensa mas,
ninguém repara. Só eu, que o conheço por dentro, sei da sua força e da sua utilidade, ali colocado naquela ponta do Cabo de S.Vicente, para guia das gentes do mar. fotos e texto de Benó
terça-feira, 23 de outubro de 2012
A Cada Maré
Só,
Caminharei por aqui.
Longo será o percurso.
Só.
A luz do farol ao longe.
O mar além, muito para além.
Só
A esperança renasce
A cada maré
foto e texto de Benó.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Despedida
Na boca ficaram os beijos que não foram dados, os sons que não chegaram a ser palavras e nos braços regaços de abraços por oferecer.
Nos olhos, à deriva como bóias naufragadas, o mar cresceu e os dois amantes lembrarão para sempre o momento da despedida. Trocarão olhares fugidios e os sons, os cheiros, a luz, as cores do curto e fugaz instante ficarão para sempre gravados no livro da paixão que agora se fecha.
As mãos húmidas afastam-se para um último aceno, num último adeus.
Mil pensamentos irrompem e escorrem fervilhantes como lava de vulcão queimando e petrificando-se no duro chão da realidade onde o sonho deixou de habitar e a ilusão murchou como uma flor colhida na hora do calor, naquela hora da despedida.
No vazio do cais, ouve-se o mar sussurrar desejos às gaivotas de asas brancas
sábado, 13 de outubro de 2012
O sol e o pau de pita
O pau de pita cresceu, cresceu tanto que chegou ao sol. Não
se queimou nem ardeu como Ícaro, apenas lhe tocou de mansinho. Era esse o seu
sonho.
As duas araucárias ante tanta ousadia e coragem montaram
guarda de honra ao jovem filho da velha mãe piteira. Em breve, ele tombará
sobre o chão onde também, a sua mãe já mirrada ficou.
São assim os paus de pita desta terra, audazes, atrevidos,
ambiciosos, apesar da sua vida curta.
Foi um momento sublime e eu registei-o para mais tarde
recordar e escrever sobre as aventuras dos paus de pita deste jardim d'abrolhos.
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Silêncio na praia
Os amantes dos derradeiros raios do sol gozavam esses momentos únicos deixando no areal dourado a marca dos seus pés nus.
As sombras alongavam-se vagarosamente pelo mar adentro, enquanto a noite com o seu manto espesso feito de escuridão, encobria os beijos e carícias dos apaixonados.
A lua que a medo começou a abrir os seus olhos prateados, estendeu-se languidamente por sobre a maré que já se enrugava em subtis pregas de renda branca numa brincadeira de leva e traz com as fitas de algas que, por sua vez, corriam atrás da espuma.
Ao longe, muito ao longe vindo das furnas cavadas nas rochas, o som das risadas infantis das conchas que tentavam adormecer embaladas nos braços dos polvos, enquanto os amantes namorados retiravam-se plenos de amor e caricias.
A praia recolhia-se ao silêncio abraçada pelos fios do luar.
A noite caminha na procura da aurora e dentro de instantes, com a baixa mar, o areal estará renovado, lavado, sem lembranças de amores esquecidos.
Será a renovação da vida.
foto e texto de Benó
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Saias de pregas
As saias eram de roda, pregueadas ajustadas à cintura fina marcada pelo cinto bem ajustado. Dançava-se o fox trote, o rock’n roll, a rumba, o bolero mas também a valsa e o tango, bem agarradinhos, apertadinhos, transpirados, nas “matinées” dançantes dos clubes recreativos. E os sonhos criados eram lindos, eram dourados, Subiam alto.
Os corações transbordavam de ilusões.
Amava-se intensamente, para sempre..
Com juras e promessas se entregavam eles a elas e elas a eles com o corpo e com a alma. Inteiras.
Tempo das saias de roda. Pregueadas.
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