Durante o dia, o adro da igreja servia de palco às mil brincadeiras dos pardais.
Num corre-corre desordenado, as pernas movimentavam-se em saltos e correrias assim como as asas se agitavam em volteios graciosos para cima e para baixo, para a frente e para trás riscando o ar em figuras abstratas e invisíveis.
Os rapazes da Vila sabiam manter uma convivência perfeita com as aves frequentadoras daquele espaço.
Os dias de verão são longos mas as horas eram poucas para tanta brincadeira impossível de ser vivida e convivida nas grande cidades de onde muitos rapazes vinham para passar férias.
Depois do jantar e nas noites menos enluaradas, era a vez das aves noturnas aparecerem e jogar-se "a prova da coragem".
Os rapazes mais novos e, talvez por isso, mais medrosos, eram desafiados pelos mais velhos a passar em andamento normal, sem correrias, junto à janela da sacristia.
Acontece que uma coruja de grandes olhos negros tinha lá o seu poiso.
Quando o pretendente a valentão se aproximava, era o pássaro que se assustava e fugia para a árvore mais próxima, riscando o ar num vôo lento e silencioso.
A menina ia com o irmão assistir àquelas provas de coragem.
Ela também tinha medo da coruja da sacristia com aquele bico adunco e uma cabeça bem diferente das aves diurnas que esvoaçavam alegremente quando se aproximava.
Hoje, já mulher, continua a assustar-se com as corujas da sacristia.
Ainda esvoaçam muitas por aí.