segunda-feira, 21 de março de 2016

Redes




As redes descansam no cais. Vieram prenhas de peixe brilhante, reluzente nas suas escamas de prata, ouro para os pescadores, pois é peixe que lhes põe o pão na mesa, que os veste e torna possível dar aos seus filhos uma instrução mais cuidada do que aquela que tiveram.

Eles correram descalços pelos areais das praias na procura de búzios e conchas para  brincar; iam à maré para trazer para casa lapas que serviam de almoço com uma mão cheia de figos torrados. Brincaram ao cavalinho corrido e os joelhos tinham feridas constantes que a água salgada desinfetava mas não curava. Passavam frio no inverno e um prato de papas de milho era, muitas vezes, o substituto do peixe que não vinha  nas redes, nos dias e dias de vendaval em que o mar zangado, vá-se lá saber porquê, afastava o peixe para outros mares e o pão faltava na mesa .

Hoje, os seus filhos estudam para doutores, calçam ténis de marca e não querem saber do mar. Não sabem o que é ir à maré mas sabem equilibrar-se numa prancha de surf e deslizar sobre as vagas até à praia. Não sabem o que é alar a rede mas sabem navegar na net. Não saltam ao cavalinho corrido mas saltam de parapente das altas arribas das nossas praias. É isso e muito mais o que as redes que descansam no cais lhes proporcionam quando vêm prenhas de peixe.
Elas também precisam de sol.
 
foto e texto de Benó

7 comentários:

✿ chica disse...

Linda foto e texto que nos faz pensar. As diferenças entre os tempos, não? Antes o trabalho duro, livres no mar. Hoje, estudo, trabalho engravatados, mas sem liberdade! O que é melhor? bjs, chica

Diana Fonseca disse...

Adorei o texto e a fotografia é muito bonita.

Diana Machado disse...

Verdade seja dita que todos nós precisamos de sol :)

manuela baptista disse...

e no entanto, um filho de pescador sonhará sempre com o mar

uma Páscoa Feliz, para si Benó

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Benó.
Tanta vida nesta sua prosa encantada.
Tantas mudanças na vida e nos viveres. Evolução, progresso... a manterem-se das mesmas redes que trazem o peixe. Ironias.

Deixo-lhe um beijo doce, com sabor a amêndoas torradas ;)

Ana Freire disse...

Sinais dos tempos, Benó!...
Mas talvez o que as redes mais assegurem... será talvez um passaporte daqui para fora... para os filhos dos pescadores... visto a pesca, ser um sector que aos poucos tem vindo a ser desmantelado... ainda desde o tempo, em que o nosso ex-presidente, foi ministro...
A que a quota de pescas... legado da Cristas... veio dar mais uma machadada... no descalabro actual deste sector...
Brilhante o texto, como sempre! E acompanhado de uma magnifica imagem!...
Beijinhos! Bom fim de semana! E uma Feliz Páscoa, na companhia dos seus!
Ana

Graça Pires disse...

É tão verdade o que o seu texto nos diz. Faz pensar. Faz querer que as redes voltem à faina e que os meninos brinquem pela areia, mesmo que venham a tornar-se "doutores"...
Um beijo, amiga Benó.