quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Há moiro na costa





                                                                                                foto e texto de Benó

 

 
Ainda era uma adolescente, morena de grandes olhos pretos, amendoados, orlados de fartas pestanas. Olhos que sempre sorriam para todos e para a vida que vagarosamente decorria.

Numa alegria constante, espalhava risos e gargalhadas por entre familiares e por todos os que com ela conviviam. Era o braço direito de sua mãe, uma preciosa ajuda para tratar e cuidar dos mais novos e dos muito mais velhos que ainda faziam parte dos viventes naquela casa sempre em constante movimento.

De repente, o seu estar modificou-se.

Andava numa distração permanente. A avó queixava-se dos seus silêncios e da falta de companhia para jogar ao dominó, o seu jogo preferido ou para conversar; a mãe, das suas demoras quando a mandava à rua fazer qualquer recado e os mais pequenos choravam pela falta das brincadeiras habituais.

Dir-se-ia que a casa estava a tornar-se pequena e a adolescente necessitava de sair mais vezes para conversar com as amigas, de espaço, de liberdade ou então de estar só, isolada, longe de tudo e todos, a ouvir o bater descompassado do seu coração.

Com alguma frequência, podíamos vê-la debaixo das árvores do jardim, deitada na relva, fitando o céu com aqueles seus olhos grandes, absorta em pensamentos que eram só seus.

Até o pai começou a notar que a sua menina estava diferente e, como pessoa habituada às mudanças dos humores juvenis e femininos, comentou com a mãe, igualmente conhecedora dessas coisas e dos jovens corações apaixonados:

-“Há moiro na costa"

 

3 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia
Tantas vezes ouvi esta expressão...
O mouro na costa carregava muitas coisas, segredos só nossos ou coisas que os mais velhos se apercebiam ... e os jovens a pensar que só eles é que sabiam...
O despertar dos sonhos...
O esconder a nossa nudez...

Beatriz Bragança disse...

Querida Benó
No Norte do país também usamos muito essa expressão.É um tempo indescritível,só conhecido por quem já o viveu.Todo o tempo é pouco para sonhar!
O seu texto,magnífico,fez.me voltar a sonhar com outros tempos! Bem haja.
Bom fim de semana.
Um abraço
Beatriz

São disse...

Mais uma priva da importância da presença árabe na Península.


Só espero que não se lembrem de fazer o que os judeus fizeram e não queiram regressar , invocando que têm esse direito e descarregando sobre nós todo o sofrimento e humilhação que os palestinianos sofrem às mãos do auto denominado povo eleito de Deus.

Boa semana